31 dezembro 2007
2007
No último dia de 2007 arranjo coragem para tentar extrair algumas palavras de mim. Coisa nada fácil e constrangedora. Dedico esta escrita aos já falecidos. Aqueles que não passarão pelo ano 2008. Um futuro nunca conhecido e talvez desejado. Eu, porém, preferia voltar atrás. Começar 2007 do início. Mudar o ano que se passou. Poder ressuscitar o meu pai ou pelo menos ter a possibilidade de falar com ele. De agradecer tudo o que me ensinou e pedir desculpa por tudo o que não fui capaz de perdoar. Pudera eu sentir esta dor pelos ainda vivos. Virar-me para o futuro e alterá-lo. Aprender com a dor e não viver nela. 2008 vai ser um ano de dor. Um ano de solidão. O primeiro ano sem um pai. Sinto-me orfã. Perdida no mundo dos grandes sem as palavras sábias do homem que me orientou até aqui. Não quero novidades para 2008. Preferia que o mundo estagnasse, que nada continuasse. Sinto que o nada depois da morte é uma cegueira perante o futuro. Só resistem as memórias e há uma parede entre os vivos presentes e os mortos passados. Eu preferia que pudessem ver o futuro. Que nos ajudassem a ultrapassar os momentos mais felizes e duradouros. Para quê viver momentos marcantes se não posso dizer ao meu pai? Será que ele ficava orgulhoso se me visse a trabalhar? Será que eu trabalhava se ele estivesse vivo? Obrigada pai, por teres ido comigo até ao centro de emprego. Sinto isso como uma vontade de quereres que eu trabalhasse. Será que sabes? Quem me dera que soubesses...Que não te lembrasses de mim inútil e inconsciente. Como o dia de amanhã fosse igual ao de hoje. Não é... Aprendi da pior maneira. Mas não me queixo. Só te tenho de agradecer... Perdoa-me se não consigo. Preferia viver burra por mais tempo.
26 setembro 2007
Pensamentos bloqueados
Já há muito que queria fazer isto. Falta de coragem, de motivação, de inspiração. Há algo em mim que existe e ao mesmo tempo se esconde. Desde pequenina que sinto necessidade de captar os momentos como se fosse uma máquina fotográfica. Preciso de um papel para me exprimir, mas no momento é díficil deixar transparecer todas as emoções que senti num momento. Tenho o privilégio de poder sentir tudo excessivamente. Não sei se deva comparar com uma explosão de cores ou de cheiros, das duas uma. Uma harmonia, um preto ou um perfume, não importa. Antes de escrever desenhava. Sempre mulheres. Nada de ambientes, paisagens. Sempre o corpo humano feminino. Penso agora que seja porque queria que dele pudesse exprimir sensações. Gostava de dar algum movimento aos corpos. Roupas justas ou largas e leves. Nunca gostei de desenhar um corpo de frente a olhar para mim. Estava sempre distraído, natural, como se eu passasse por lá e sentisse que devia tirar uma foto aquela mulher. E tentei desenhá-la anos a fio. Mas nenhuma ficou perfeita. Depois descobri a escrita. Usei-a de forma despreocupada durante a minha infância, porém sempre com o desejo de que transmitisse sentimentos. Uns versos em dias de festejo, umas linhas diarísticas muito precisas, letras diferentes em cada dia. Sempre à busca de uma perfeição, há busca de uma expressão de mim.
Leio agora o que escrevi na minha adolescência e rio. Espero que sintais o mesmo que eu ao ler isto: " Fui paixão de muitos amantes, / calor de muitas brasas. / No meu coração errante,/ ninguém prende as minhas asas."
Atenção, não sou humilhada sem humilhar... Já agora, na leitura insaciavel dos meus diários fui dando de encontro com cartas. Cartas ridículas e infantis como a minha quadra. Por exemplo: "És daquelas pessoas , poucas neste mundo, que merece que tudo de bom lhes aconteça." Erros sintácticos à parte, há uma questão de semântica importante. A escrita deveria ser eterna, neste caso durou pouco o sentimento... Se bem que agora a frase ganhou muito mais sentido do que na altura:) E quem já não recebeu cartas com frases assim: " dizer que te amo, para mim é pouco, porque o que sinto é muito mais do que isso, o que sinto é algo de divino...". Melhor, frases de quem me insultou os piores nomes até hoje ouvidos: " Quero que saibas que te respeito muito, mesmo muito." Ou esta de quem me disse que tudo o que passou comigo não passou de uma aventura igual a muitas outras: "Contigo estou a passar um dos melhores momentos da minha vida. Um momento que me ficará gravado na memória". Pois...nota-se:)
Muitas cartas já deitei ao lixo, mas são todas iguais. Todas dizem esses sentimentos que as pessoas pretendem definir e que ao fim de contas chama-se ilusão.
Quantas vezes vou na rua e apetece-me gravar o momento. Momentos interessantes como as expressões das pessoas na fila da segurança social, pessoas no metro, funcionários do tribunal, o homem do talho, a sobrinha solteirona do homem mais rico de vila do conde. Uma fotografia apanha a pessoa e apaga o momento. Tempo passa por mim. Essas pessoas estão a sentir agora e eu a sentir com elas. Sinto por elas. O homem do talho a almoçar peixe a saber a porco, a funcionária do tribunal de cabelos grisalhos e loucos a cantar uma melodia que só ela conhece, pessoas no metro a pensar em pessoas no metro, a solteirona a pensar em sexo que nunca teve. Sou ou não a pessoa mais cuscuvilheira de vila do conde? O estranho é a minha paranóia com todos me conhecerem e eu não querer conhecer ninguém. Acho que quero sair daqui. Quem serei eu? A mãe solteira desempregada? Em que estarei a pensar aos olhos das outras pessoas? Não me importa o que elas pensem acerca de mim. Tudo me parece mais negativo do que realmente é. Devo ser um "frango tipo leitão":)
Leio agora o que escrevi na minha adolescência e rio. Espero que sintais o mesmo que eu ao ler isto: " Fui paixão de muitos amantes, / calor de muitas brasas. / No meu coração errante,/ ninguém prende as minhas asas."
Atenção, não sou humilhada sem humilhar... Já agora, na leitura insaciavel dos meus diários fui dando de encontro com cartas. Cartas ridículas e infantis como a minha quadra. Por exemplo: "És daquelas pessoas , poucas neste mundo, que merece que tudo de bom lhes aconteça." Erros sintácticos à parte, há uma questão de semântica importante. A escrita deveria ser eterna, neste caso durou pouco o sentimento... Se bem que agora a frase ganhou muito mais sentido do que na altura:) E quem já não recebeu cartas com frases assim: " dizer que te amo, para mim é pouco, porque o que sinto é muito mais do que isso, o que sinto é algo de divino...". Melhor, frases de quem me insultou os piores nomes até hoje ouvidos: " Quero que saibas que te respeito muito, mesmo muito." Ou esta de quem me disse que tudo o que passou comigo não passou de uma aventura igual a muitas outras: "Contigo estou a passar um dos melhores momentos da minha vida. Um momento que me ficará gravado na memória". Pois...nota-se:)
Muitas cartas já deitei ao lixo, mas são todas iguais. Todas dizem esses sentimentos que as pessoas pretendem definir e que ao fim de contas chama-se ilusão.
Quantas vezes vou na rua e apetece-me gravar o momento. Momentos interessantes como as expressões das pessoas na fila da segurança social, pessoas no metro, funcionários do tribunal, o homem do talho, a sobrinha solteirona do homem mais rico de vila do conde. Uma fotografia apanha a pessoa e apaga o momento. Tempo passa por mim. Essas pessoas estão a sentir agora e eu a sentir com elas. Sinto por elas. O homem do talho a almoçar peixe a saber a porco, a funcionária do tribunal de cabelos grisalhos e loucos a cantar uma melodia que só ela conhece, pessoas no metro a pensar em pessoas no metro, a solteirona a pensar em sexo que nunca teve. Sou ou não a pessoa mais cuscuvilheira de vila do conde? O estranho é a minha paranóia com todos me conhecerem e eu não querer conhecer ninguém. Acho que quero sair daqui. Quem serei eu? A mãe solteira desempregada? Em que estarei a pensar aos olhos das outras pessoas? Não me importa o que elas pensem acerca de mim. Tudo me parece mais negativo do que realmente é. Devo ser um "frango tipo leitão":)
Desemprego
Setembro a acabar e a minha vida ainda não começou. Sinto-me embrião. Dias mais aconchegados que outros. Já tive mais vontade de nascer, agora não tenho pressa. Cada dia de sua vez. Hei de ser alguém um dia. Trabalhei muito tempo até chegar a embrião, daqui ou vida ou morte. A probabilidade de morrer é ínfima e só com alguns pozinhos de surpresas. Sinto-me enrolada no meu próprio cordão umbilical... Ando as voltas e ainda não descobri se estou a enforcar-me mais ou a desenvencilhar. Seja como for, cada volta uma descoberta. É aproveitar o nada.
22 junho 2007
Dias como o de hoje são raros de se viver. Pensava até que impossíveis. O ser humano é tão complexo. Cada dia é uma descoberta. Hoje descobri algo conscientemente. Descobri que há beleza no mundo. Um pequeno gesto como um olhar acompanhado de um sorriso, numa pessoa bela, torna o dia mais radiante. Encontrarmos alguém já há muito perdido, que nos elogia e nos valoriza, mostra o quanto somos importantes. Houve dias em que eu precisava de ver o quanto sou importante.
Por vezes esquecia-me, outras vezes deixava-me compenetrar nos pensamentos maléficos de pessoas egoístas. Sinto que a maior parte do tempo vivia por elas, sentia o que elas queriam que eu sentisse, transformava-me no que elas queriam que eu fosse.
Hoje senti-me eu!Um eu não conhecido, mas que despertou a curiosidade e amabilidade em outrem; um eu, por outro lado, esquecido, menosprezado e desvalorizado pelas pessoas que convivem comigo todos os dias e com o meu indesculpável consentimento. Foi esse menosprezo que me levou para os mundos da amargura, que me fez duvidar da existência de qualquer objectivo na minha vida. e foi essa valorização, esse olhar mais cativante sobre mim, que me fez sorrir e me deu forças para ser. Poucas pessoas são. Algumas preferem sentir alegria, sentir conforto, sentir dor, tristeza a ser. Ser não é sentir.
Só somos quando afectamos os outros e não a nós próprios. Nestes últimos tempos vi o que era sentir. Vi muitas pessoas sentirem. Ficarem presas a sentimentos. Fui objecto de desabafo de muitos sentimentos: uns condenáveis, outros inevitáveis. Senti também, como se fosse uma doença contagiante. Senti tanto que os sentimentos criaram em mim uma força tal que me foi impossível controlar. Eram várias vozes na minha cabeça. Um só ser não deve sentir tanto. Chorei. Converti os sentimentos em gotas de água. Claro que ainda sinto. Os sentimentos são inevitáveis, mas controláveis. Só os deixamos escapar quando pensamos que não somos.
Eu agora sou!!! Conheci o amor e não o vou perder. Este não é hábito. É algo que nunca me fará sofrer. Algo que eu me entrego de corpo e alma. Aquilo que me faz feliz e, mais importante, me faz ser. Quanto mais me entrego mais ele me dá vida. Dá-me força. Nunca experienciei tamanho poder. Todo o meu corpo emana uma energia que ninguém controla. O mais estranho é que nasceu de um momento para o outro. Só bastou um olhar que impulsionou o início de uma vivência nova e exigente. O olhar é imprescindível. Sem ele eu não existia. Mete medo pensar não ser olhada. Muito mais importante do que verificarem níveis da minha beleza e olharem para o meu corpo é verem a minha alma. Um arrepio sinto quando penso que de um olhar eu nasci. Vi-me na obrigação de continuar a ser. É uma promessa que aqui deixo. Sou, por ti!! Agradeço-te a coragem que me deste para a concretização dos meus sonhos. Agradeço-te não me teres pedido nada em troca. Agradeço-te o dia de hoje. Se algum dia te esquecer é porque me esqueci. Espero que sejas por minha causa tal como eu sou por tua. Só tu me viste até agora e agora. Pergunto-me se há só um olhar para cada ser? Sei que nem todos têm esse privilégio.. Será desequilibrado? Eu não consigo fazer o que me fazes a ninguém... Não há alma no mundo que eu conheça e ame... Parecem-me todas defeituosas. Que pretensão a minha! Eu sei:) Porém gostava de ver alguém.. Esta insatisfação da minha alma foste tu que a criaste!! Mostraste-me o outro lado da vida que muitos não conhecem e não compreendem... Ficam presos a preconceitos e vivências que tornam o amor perverso e odiável. Tu és um ser puro, longe de tudo o que conheci. Viste defeitos e qualidades, consegues criar outros defeitos e qualidades em mim.
Deixo-te este rascunho até quando vir que é suficiente. Depois outro rumo tomarei, tal como uma onda que amacia o chão onde pisas e volta de novo para o oceano.
Por vezes esquecia-me, outras vezes deixava-me compenetrar nos pensamentos maléficos de pessoas egoístas. Sinto que a maior parte do tempo vivia por elas, sentia o que elas queriam que eu sentisse, transformava-me no que elas queriam que eu fosse.
Hoje senti-me eu!Um eu não conhecido, mas que despertou a curiosidade e amabilidade em outrem; um eu, por outro lado, esquecido, menosprezado e desvalorizado pelas pessoas que convivem comigo todos os dias e com o meu indesculpável consentimento. Foi esse menosprezo que me levou para os mundos da amargura, que me fez duvidar da existência de qualquer objectivo na minha vida. e foi essa valorização, esse olhar mais cativante sobre mim, que me fez sorrir e me deu forças para ser. Poucas pessoas são. Algumas preferem sentir alegria, sentir conforto, sentir dor, tristeza a ser. Ser não é sentir.
Só somos quando afectamos os outros e não a nós próprios. Nestes últimos tempos vi o que era sentir. Vi muitas pessoas sentirem. Ficarem presas a sentimentos. Fui objecto de desabafo de muitos sentimentos: uns condenáveis, outros inevitáveis. Senti também, como se fosse uma doença contagiante. Senti tanto que os sentimentos criaram em mim uma força tal que me foi impossível controlar. Eram várias vozes na minha cabeça. Um só ser não deve sentir tanto. Chorei. Converti os sentimentos em gotas de água. Claro que ainda sinto. Os sentimentos são inevitáveis, mas controláveis. Só os deixamos escapar quando pensamos que não somos.
Eu agora sou!!! Conheci o amor e não o vou perder. Este não é hábito. É algo que nunca me fará sofrer. Algo que eu me entrego de corpo e alma. Aquilo que me faz feliz e, mais importante, me faz ser. Quanto mais me entrego mais ele me dá vida. Dá-me força. Nunca experienciei tamanho poder. Todo o meu corpo emana uma energia que ninguém controla. O mais estranho é que nasceu de um momento para o outro. Só bastou um olhar que impulsionou o início de uma vivência nova e exigente. O olhar é imprescindível. Sem ele eu não existia. Mete medo pensar não ser olhada. Muito mais importante do que verificarem níveis da minha beleza e olharem para o meu corpo é verem a minha alma. Um arrepio sinto quando penso que de um olhar eu nasci. Vi-me na obrigação de continuar a ser. É uma promessa que aqui deixo. Sou, por ti!! Agradeço-te a coragem que me deste para a concretização dos meus sonhos. Agradeço-te não me teres pedido nada em troca. Agradeço-te o dia de hoje. Se algum dia te esquecer é porque me esqueci. Espero que sejas por minha causa tal como eu sou por tua. Só tu me viste até agora e agora. Pergunto-me se há só um olhar para cada ser? Sei que nem todos têm esse privilégio.. Será desequilibrado? Eu não consigo fazer o que me fazes a ninguém... Não há alma no mundo que eu conheça e ame... Parecem-me todas defeituosas. Que pretensão a minha! Eu sei:) Porém gostava de ver alguém.. Esta insatisfação da minha alma foste tu que a criaste!! Mostraste-me o outro lado da vida que muitos não conhecem e não compreendem... Ficam presos a preconceitos e vivências que tornam o amor perverso e odiável. Tu és um ser puro, longe de tudo o que conheci. Viste defeitos e qualidades, consegues criar outros defeitos e qualidades em mim.
Deixo-te este rascunho até quando vir que é suficiente. Depois outro rumo tomarei, tal como uma onda que amacia o chão onde pisas e volta de novo para o oceano.
21 junho 2007
Quando menos se espera acontecem situações imprevisíveis. Um telefonema estranho, um encontro inesperado, um olhar atrevido, o início de uma conversa entre dois estranhos. Para isso basta apenas a harmonia. Não sei de onde vem essa harmonia, se são astros ou átomos. Algo, porém, torna possível um novo acontecimento na vida de duas pessoas.
Estando sentada em cima de pequenas partículas sólidas que constroem um areal, um cão correu ao meu encontro e espalhou as areias de forma a que estas tivessem a liberdade de saltar para longe das suas vizinhas. Dei, momentaneamente, importância ao percurso de algumas partículas, temendo que estas se quisessem alojar em algum sítio do meu corpo mais sensível. Escapei a essa sorte e aí pude responder a felicidade enérgica do cão. Não passou muito até ouvirmos a voz preocupada e aborrecida do dono a chamar a atenção ao comportamento não apreciável do seu companheiro canino. O sermão foi suavizado pelo meu comentário que despoletou a conversa entre os dois humanos. Tirando a minha falta de assunto, tomei conhecimento das características do cão e as suas principais aventuras do seu primeiro ano de vida. Sorrisos surgiram naturalmente pela qualidade do interlocutor de dar um tom humorístico às situações relatadas. Senti admiração pela manutenção de um carácter tão jovial ao longo de tanto tempo e ao mesmo tempo tristeza pela solidão daquele homem, retirando prazer de uma pequena conversa social. Fiquei a observar de longe os dois companheiros a desaparecerem por entre a areia ondeante e verifiquei que estava sozinha. Não era o velho que estava sozinho, era eu. Ele apenas reparou que eu precisava de falar e dispôs-se a fazer esse sacrifício.
Agarrei num punhado de areia, levantei-me e deixei-a cair, naturalmente, da minha mão. Só uma partícula não caiu e senti que devia guardá-la.
Amanhã vou à praia levá-la para beira dos seus iguais. Talvez não estivesse bem num lugar e quisesse mudar. Pode ser que se sinta melhor noutro sítio.
Esperemos que sim.
Estando sentada em cima de pequenas partículas sólidas que constroem um areal, um cão correu ao meu encontro e espalhou as areias de forma a que estas tivessem a liberdade de saltar para longe das suas vizinhas. Dei, momentaneamente, importância ao percurso de algumas partículas, temendo que estas se quisessem alojar em algum sítio do meu corpo mais sensível. Escapei a essa sorte e aí pude responder a felicidade enérgica do cão. Não passou muito até ouvirmos a voz preocupada e aborrecida do dono a chamar a atenção ao comportamento não apreciável do seu companheiro canino. O sermão foi suavizado pelo meu comentário que despoletou a conversa entre os dois humanos. Tirando a minha falta de assunto, tomei conhecimento das características do cão e as suas principais aventuras do seu primeiro ano de vida. Sorrisos surgiram naturalmente pela qualidade do interlocutor de dar um tom humorístico às situações relatadas. Senti admiração pela manutenção de um carácter tão jovial ao longo de tanto tempo e ao mesmo tempo tristeza pela solidão daquele homem, retirando prazer de uma pequena conversa social. Fiquei a observar de longe os dois companheiros a desaparecerem por entre a areia ondeante e verifiquei que estava sozinha. Não era o velho que estava sozinho, era eu. Ele apenas reparou que eu precisava de falar e dispôs-se a fazer esse sacrifício.
Agarrei num punhado de areia, levantei-me e deixei-a cair, naturalmente, da minha mão. Só uma partícula não caiu e senti que devia guardá-la.
Amanhã vou à praia levá-la para beira dos seus iguais. Talvez não estivesse bem num lugar e quisesse mudar. Pode ser que se sinta melhor noutro sítio.
Esperemos que sim.
12 junho 2007
gota de água
Uma gota de água deve ser valorizada. Arca consigo todo um simbolismo que nos escapa. Longe de mim entrar nos caminhos melindrosos da semiótica. No entanto, hoje, especialmente,há em mim um sentimento tão forte, tão poderoso e tão temeroso que me faz lembrar uma gota de água. Poucas são as pessoas que não substimam o poder deste ser aparentemente tão frágil.
Eu, porém, detenho-me, frequentemente, a olhar para as gotas de água mais vagarosas. Umas que caem do céu e estampam-se no vidro da janela do meu quarto. Sigo o caminho que percorrem e é díficil não imaginar a sensação de uma lágrima a escorregar pela minha face. Não quero de todo desviar-me daquilo que me impeliu a escrever. Nem era possível conseguir fugir a este sentimento. Não sei descrevê-lo, apenas poderei dizer que hoje sou uma gota de água. Mais não sei. As gotas são tão importantes que, apesar de mínimas, podem provocar excessividades e excentricidades. Acho que estou quase a atingir a gota de água que me impulsionará para o mundo da extravasão. Quando uma nuvem sente a necessidade de libertar o peso que a carrega ou quando um humano sente a vontade de exprimir a sua mágoa através de uma lágrima há o derramamento da gota de água. Aquela mais importante, que simboliza a necessidade de desabafar. Ora, eu, contraditoriamente, quando preciso de desabafar, retenho as gotículas dentro de mim e espero as suas consequências. Serão desastrosas. Há um demónio dentro de mim. Exalo uma energia negativa. Sinto que há invejas e mesquinhices ao meu lado. Apetece-me matar. Sim, matar. Ah... que vontade de saciar o meu apetite!!! Sorver a malignidade dos seres que me rodeiam!!! Porquê?? Por que é que eu sinto isto? Por que é que consigo olhar para dentro do âmago de cada ser? É asqueroso, horripilante pensar que existem pessoas assim. A falsidade atingiu limites que ultrapassam os limites da inteligibilidade. Eu sou falsa!! Só eu sou falsa, mais ninguém!! Eu invento invejas!! Eu invento ódios e mentiras!! Eu escorro pelas minhas janelas até ao chão. Mais ninguém. Tudo está espelhado na aparente transparência de uma gota de água, que, afinal, desfigura a realidade que lhe deu oportunidade de viver. Só vos peço que me deixem seguir o meu percurso. Não queiram juntar se a mim e aumentar o peso do meu destino. Sozinha conseguirei que todas as gotas sejam felizes e possam escorregar pela minha janela sem encontrões ou acumulações de emoções. Tudo linear, tudo natureza. Basta uma gota de água para eu rebentar.
Agradeço que me deixem chegar ao chão.
Obrigada.
Eu, porém, detenho-me, frequentemente, a olhar para as gotas de água mais vagarosas. Umas que caem do céu e estampam-se no vidro da janela do meu quarto. Sigo o caminho que percorrem e é díficil não imaginar a sensação de uma lágrima a escorregar pela minha face. Não quero de todo desviar-me daquilo que me impeliu a escrever. Nem era possível conseguir fugir a este sentimento. Não sei descrevê-lo, apenas poderei dizer que hoje sou uma gota de água. Mais não sei. As gotas são tão importantes que, apesar de mínimas, podem provocar excessividades e excentricidades. Acho que estou quase a atingir a gota de água que me impulsionará para o mundo da extravasão. Quando uma nuvem sente a necessidade de libertar o peso que a carrega ou quando um humano sente a vontade de exprimir a sua mágoa através de uma lágrima há o derramamento da gota de água. Aquela mais importante, que simboliza a necessidade de desabafar. Ora, eu, contraditoriamente, quando preciso de desabafar, retenho as gotículas dentro de mim e espero as suas consequências. Serão desastrosas. Há um demónio dentro de mim. Exalo uma energia negativa. Sinto que há invejas e mesquinhices ao meu lado. Apetece-me matar. Sim, matar. Ah... que vontade de saciar o meu apetite!!! Sorver a malignidade dos seres que me rodeiam!!! Porquê?? Por que é que eu sinto isto? Por que é que consigo olhar para dentro do âmago de cada ser? É asqueroso, horripilante pensar que existem pessoas assim. A falsidade atingiu limites que ultrapassam os limites da inteligibilidade. Eu sou falsa!! Só eu sou falsa, mais ninguém!! Eu invento invejas!! Eu invento ódios e mentiras!! Eu escorro pelas minhas janelas até ao chão. Mais ninguém. Tudo está espelhado na aparente transparência de uma gota de água, que, afinal, desfigura a realidade que lhe deu oportunidade de viver. Só vos peço que me deixem seguir o meu percurso. Não queiram juntar se a mim e aumentar o peso do meu destino. Sozinha conseguirei que todas as gotas sejam felizes e possam escorregar pela minha janela sem encontrões ou acumulações de emoções. Tudo linear, tudo natureza. Basta uma gota de água para eu rebentar.
Agradeço que me deixem chegar ao chão.
Obrigada.
23 maio 2007
A Morgadinha dos Canaviais
A recente leitura da Morgadinha dos Canaviais sugeriu-me algumas reflexões . Leitura fácil e, no entanto, aprazível. Diversos estilos de linguagem adaptados a cada personagem, que realçam as suas características citadinas ou aldeãs. Entre as reflexões do narrador sobre os problemas do desenvolvimento das aldeias, sobre perspectivas políticas e crítica à corrupção da alma, o que mais se valoriza (talvez para captação da atenção de um público alvo) é o contraste das classes sociais e as relações entre personagens. Pelo título descobre-se a personagem que protagonizará a história principal, mas não será a minha favorita. Personagem astuta e inteligente, mas, ao mesmo tempo, presa a preconceitos. Torna-se ridícula a importância atribuída a uma personagem que, no final, evidencia comportamentos preconceituosos, apesar de afirmar o contrário.
Não tendo eu uma visão muito positiva sobre o amor, não me convém olhar para esta obra sob uma perspectiva amorosa. Já que, ao ler, o que me ficou evidenciado foi a não existência do amor.
O amor é para mim sinónimo de hábito. O que as pessoas procuram é o hábito. Este, conjugado com uma boa aparência e uma superficial identificação de ideais, torna-se mais forte e difícil de abandonar. O medo de Henrique de ficar sozinho, faz com que se "apaixone" por uma rapariga (inconsciente e ingénua, típica mulher casadoira) de aspecto físico angelical. Essa paixão surgiu, depois, de esta personagem ter vivido sobre os cuidados da doméstica. Um amor que surgiu dos hábitos domésticos. Note-se, que, na mesma obra, se faz referência à D. Doroteia e à sua criada, ambas da mesma idade, que habitam a mesma casa e quase a mesma personalidade. Aí está o hábito, um amor que aparentemente não se concretizou fisicamente, pelo menos assim quis fazer sobressair o narrador: " A inalterável harmonia, mantida havia tantos anos entre as duas, poderia ser exemplo à maior parte das famílias deste mundo. Entre velhas, que nunca tiveram filhos, circunstância que em geral faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso." O hábito, a aceitação dos erros dos outros (desde que esses aceitem os nossos), o medo da solidão cria o famigerado amor. Não há caras-metade, há a criação de ideais de hábito. Isto é, analisa-se uma pessoa exterior e interiormente para se reflectir o quanto teríamos de mudar e prescindir para nos libertarmos dos ferros da solidão. É tudo uma questão de percentagens. Existem pessoas com hábitos parecidos com os nossos, outras que chocam de tal maneira que é impossível uma relação duradoira (embora, por vezes, se tente salvar a relação por uma questão física - há apenas o prolongamento da dor).
Esse medo da solidão é o mesmo medo que temos da morte. Para além de inevitável, não é mau. É misterioso, novo, mas não mau. Tanto a vida como as relações têm mais aspectos negativos do que a solidão e a morte. O hábito/ amor é a aceitação da irreflexão, do domínio da inconsciência, do consentimento do sofrimento e do laissez-faire. O amor é o comodismo, a porta fechada para viagens ao conhecimento. A prisão do hábito/ amor não pode co-ocorrer com a liberdade de opções. É-me impossível, portanto, amar e compreender aqueles que afirmam amar. O amor é de evitar, devemos sempre procurar atingir o nosso melhor enquanto seres humanos e não nos acomodarmos com a visão complacente de uma pessoa que consente os nossos vícios. Amor não é antónimo de ódio, mas sim um desvio, uma variante. O ódio só nasce se se relacionar os defeitos/ qualidades de uma pessoa connosco. Também o amor. O que os distingue é que o ódio exige revolta, o amor consentimento. Longe de mim valorizar o ódio. Pelo contrário, para se odiar é necessário ter experimentado o amor. Nem um nem outro são aconselháveis. Os dois provocam sofrimento. O que eu valorizo é vontade e concretização da mudança. Mudança de vícios, transformação de defeitos em qualidades, ajuda na auto e hetero-estima. Aconselho a não utilizar seres humanos para fugir à inevitabilidade. Utilizem o papel como eu.
P.S. Na leitura de Madame Bovary encontrei algo que corrobora a minha tese : " ... não teve dificuldade em se convencer de que a paixão de Charles nada mais tinha de extraordinário. As suas expansões haviam-se tornado regulares; beijava-a a determinadas horas. Era um hábito entre outros, como uma sobremesa previamente preparada, após a monotonia do jantar."
Não tendo eu uma visão muito positiva sobre o amor, não me convém olhar para esta obra sob uma perspectiva amorosa. Já que, ao ler, o que me ficou evidenciado foi a não existência do amor.
O amor é para mim sinónimo de hábito. O que as pessoas procuram é o hábito. Este, conjugado com uma boa aparência e uma superficial identificação de ideais, torna-se mais forte e difícil de abandonar. O medo de Henrique de ficar sozinho, faz com que se "apaixone" por uma rapariga (inconsciente e ingénua, típica mulher casadoira) de aspecto físico angelical. Essa paixão surgiu, depois, de esta personagem ter vivido sobre os cuidados da doméstica. Um amor que surgiu dos hábitos domésticos. Note-se, que, na mesma obra, se faz referência à D. Doroteia e à sua criada, ambas da mesma idade, que habitam a mesma casa e quase a mesma personalidade. Aí está o hábito, um amor que aparentemente não se concretizou fisicamente, pelo menos assim quis fazer sobressair o narrador: " A inalterável harmonia, mantida havia tantos anos entre as duas, poderia ser exemplo à maior parte das famílias deste mundo. Entre velhas, que nunca tiveram filhos, circunstância que em geral faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso." O hábito, a aceitação dos erros dos outros (desde que esses aceitem os nossos), o medo da solidão cria o famigerado amor. Não há caras-metade, há a criação de ideais de hábito. Isto é, analisa-se uma pessoa exterior e interiormente para se reflectir o quanto teríamos de mudar e prescindir para nos libertarmos dos ferros da solidão. É tudo uma questão de percentagens. Existem pessoas com hábitos parecidos com os nossos, outras que chocam de tal maneira que é impossível uma relação duradoira (embora, por vezes, se tente salvar a relação por uma questão física - há apenas o prolongamento da dor).
Esse medo da solidão é o mesmo medo que temos da morte. Para além de inevitável, não é mau. É misterioso, novo, mas não mau. Tanto a vida como as relações têm mais aspectos negativos do que a solidão e a morte. O hábito/ amor é a aceitação da irreflexão, do domínio da inconsciência, do consentimento do sofrimento e do laissez-faire. O amor é o comodismo, a porta fechada para viagens ao conhecimento. A prisão do hábito/ amor não pode co-ocorrer com a liberdade de opções. É-me impossível, portanto, amar e compreender aqueles que afirmam amar. O amor é de evitar, devemos sempre procurar atingir o nosso melhor enquanto seres humanos e não nos acomodarmos com a visão complacente de uma pessoa que consente os nossos vícios. Amor não é antónimo de ódio, mas sim um desvio, uma variante. O ódio só nasce se se relacionar os defeitos/ qualidades de uma pessoa connosco. Também o amor. O que os distingue é que o ódio exige revolta, o amor consentimento. Longe de mim valorizar o ódio. Pelo contrário, para se odiar é necessário ter experimentado o amor. Nem um nem outro são aconselháveis. Os dois provocam sofrimento. O que eu valorizo é vontade e concretização da mudança. Mudança de vícios, transformação de defeitos em qualidades, ajuda na auto e hetero-estima. Aconselho a não utilizar seres humanos para fugir à inevitabilidade. Utilizem o papel como eu.
P.S. Na leitura de Madame Bovary encontrei algo que corrobora a minha tese : " ... não teve dificuldade em se convencer de que a paixão de Charles nada mais tinha de extraordinário. As suas expansões haviam-se tornado regulares; beijava-a a determinadas horas. Era um hábito entre outros, como uma sobremesa previamente preparada, após a monotonia do jantar."
21 maio 2007
Não escrever durante estes meses fez ferrugem nos dedos. Sinto-os pesados e como que obrigados a escrever. Há algo em mim que se perdeu. Nada tem o sentido de antes. Aliás nada tem sentido agora. Cântico Negro já não é o meu poema de eleição. Não há nada com que eu me identifique. Seria mais: - "Vem por aqui" -
dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E descruzo os braços,
E vejo-me a ir por ali...
Sem explicação aparente, já não remo contra a maré. Não vejo nenhum objectivo. Peçam-me impossíveis e eu os obterei. Nada me preocupa, tudo me enfada. Viver na pressão de mais, mais, mais; atingiu tal ponto que o mais é nada. Não tem significado. Sou uma laranja espremida. Já não sai sumo, nem vitamina que se aproveite. Não me interessa que precisem de mim, não me interessa se eu preciso de alguém. Vazio. O tempo deixou um vazio no lugar das emoções. Uma morte, um nascimento, um desaparecimento, um encontro, um desabafo, uma queixa- seja o que for desvanece perante o meu olhar cansado. Ninguém nota quando as pessoas concordam em tudo. Porém, é isso que se deve estranhar. Um desaparecimento- mundo: "OH!!", porque não "HUM?" ou "e depois?" ou "Acontece.." Insensibilidade? poderá ser. Uma morte ou um nascimento- haverá coisa mais vulgar? Morreu um familiar teu? tenho muita pena, mas não sinto mesmo nada... Morreu um meu? então não preciso de tristezas forçadas, eu cá arranjo as minhas próprias. Tiveste um sobrinho? queres que diga que maravilha? ou que coisa fofa? os bebés são todos iguais, as crianças idem aspas. só te digo cuidado, não te deixes manipular. O bebé é meu? Então guardo-o só para mim. Lá me interessa que aches bonito ou feio, mimado ou inteligente. Só eu sei aquilo que eu sinto. Não gosto que me julguem, bem ou mal. Fujo a encontros. Sorrisos de desespero ( o que vou dizer a seguir?). Raras são as pessoas com que me queira encontrar. A essas, se as vir, abraço-as. Desabafos e queixas é que me põem fora de mim. Tudo me parecem trivialidades. Dou por mim a dizer as mesmas futilidades e deixo me ir pelo beco lamacento. Ultimamente tudo me irrita e ao mesmo tempo padeço de uma paciência descomunal. Atingi os limites. Nada mais espero de novo. Resta-me esperar o que falta a vida trazer, já que eu já fiz tudo para trazer a vida para junto de mim.
Nada do que escrevo é real e ao mesmo tempo torna-se real quando o leio. Parece que a escrita me antecede. Falta-lhe a voz da razão e do pensamento. falta-lhe a coerência e algum sentido. Sentido. Falta sentido na minha vida. Um rumo. Um objectivo. Falta conseguir escrever.
dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E descruzo os braços,
E vejo-me a ir por ali...
Sem explicação aparente, já não remo contra a maré. Não vejo nenhum objectivo. Peçam-me impossíveis e eu os obterei. Nada me preocupa, tudo me enfada. Viver na pressão de mais, mais, mais; atingiu tal ponto que o mais é nada. Não tem significado. Sou uma laranja espremida. Já não sai sumo, nem vitamina que se aproveite. Não me interessa que precisem de mim, não me interessa se eu preciso de alguém. Vazio. O tempo deixou um vazio no lugar das emoções. Uma morte, um nascimento, um desaparecimento, um encontro, um desabafo, uma queixa- seja o que for desvanece perante o meu olhar cansado. Ninguém nota quando as pessoas concordam em tudo. Porém, é isso que se deve estranhar. Um desaparecimento- mundo: "OH!!", porque não "HUM?" ou "e depois?" ou "Acontece.." Insensibilidade? poderá ser. Uma morte ou um nascimento- haverá coisa mais vulgar? Morreu um familiar teu? tenho muita pena, mas não sinto mesmo nada... Morreu um meu? então não preciso de tristezas forçadas, eu cá arranjo as minhas próprias. Tiveste um sobrinho? queres que diga que maravilha? ou que coisa fofa? os bebés são todos iguais, as crianças idem aspas. só te digo cuidado, não te deixes manipular. O bebé é meu? Então guardo-o só para mim. Lá me interessa que aches bonito ou feio, mimado ou inteligente. Só eu sei aquilo que eu sinto. Não gosto que me julguem, bem ou mal. Fujo a encontros. Sorrisos de desespero ( o que vou dizer a seguir?). Raras são as pessoas com que me queira encontrar. A essas, se as vir, abraço-as. Desabafos e queixas é que me põem fora de mim. Tudo me parecem trivialidades. Dou por mim a dizer as mesmas futilidades e deixo me ir pelo beco lamacento. Ultimamente tudo me irrita e ao mesmo tempo padeço de uma paciência descomunal. Atingi os limites. Nada mais espero de novo. Resta-me esperar o que falta a vida trazer, já que eu já fiz tudo para trazer a vida para junto de mim.
Nada do que escrevo é real e ao mesmo tempo torna-se real quando o leio. Parece que a escrita me antecede. Falta-lhe a voz da razão e do pensamento. falta-lhe a coerência e algum sentido. Sentido. Falta sentido na minha vida. Um rumo. Um objectivo. Falta conseguir escrever.
19 janeiro 2007
Memórias

Milhares de memórias percorrem os meus olhos como se fosse a última vez que eu as pudesse sentir. Quando chegam perto de mim, as pálpebras descem como se quisessem viver o passado. E nesse fechar de olhos a viagem foi possível, sinto o meu corpo a viajar e sinto os cheiros, as texturas e o meu coração. E quando sinto a palpitação do meu coração tudo se esvai. Abro os olhos e a sensação permanece, deixando o meu coração com duas palpitações. Sinto nostalgia da dor sofrida. O sentimento de saudade só indica perda, solidão. Foi em saudade que eu nasci e me criei. Tenho saudades do meu passado e do meu futuro. O presente parece-me sempre estagnado. Recuso-me a divertir para deixar mais marcas de saudade. E já sinto falta da estagnação. A minha alma hoje perdeu-se nas memórias. As memórias que não se lembram de mim...porque nunca existiram. Não são históricas, apenas são deturpações de uma perspectiva vencida que nunca será lembrada.
30 dezembro 2006
dois mil e sete
Fim de ano. Sinto um peso nos ombros. Carrego 365 dias nas minhas costas e tudo o que isso representa. Dor, muita dor em 2006. Muito sofrimento e ansiedade. Um curso acabado e uma lágrima vertida. Não houve celebrações. Só a lágrima se libertou. 2006, portanto, é sinónimo de curso, mais nada. 365 dias para mais nada. 2007 será estágio. É assustador prever já o sinónimo, mas antes de tudo, desmotivador. Alguém me ampare pois o mundo desabou no final de 2006 para eu carregá-lo em 2007. Não acho que consiga. Não entendo o porquê. Se aceitasse a razão inexplicada, talvez fosse mais fácil suportar o peso. Preferia viver na ingenuidade do que ter de viver experiências pesadas que nos fazem envelhecer 10 anos (2017). Basta de rodeios!! A raiva que corre nas minhas veias não me deixa escrever como desejava! Como é que alguém se apresenta como modelo e depois põe a possibilidade de nos abandonar!!! Eu não tolero ser abandonada, nem a possibilidade de poder ser abandonada!!! Onde estão os sentimentos? Há coisas que não se dizem...Solidão..Só eu senti a revolta. Porquê? Por que só senti humilhação à minha volta? Basta! Não suporto hierarquias...Não acho tolerável haver hierarquias. Fim de ano e não me aguento muito mais neste mundo. Mundo das aparências, das ilusões, do medo de magoar e magoar. Chega! Qual é o objectivo disto tudo? Para já provocou desmotivação. Não aguento mais. Pagar para ser humilhada? Pago quase 1000 euros de propinas para a ministra chegar e dizer que nós somos nada? que nós nos arranjamos com qualquer um? Para nos estragar o nosso ano de estágio porque outros valores mais altos se alevantam? Uma ministra que se diz ser da educação e não tem nenhuma vergonha de nos pisar? Precisa do nosso orientador e pronto acabou-se o estágio para as meninas...Mas o que é isto? Não suporto!! Voltas e voltas no estômago. Gritos de injustiça... O que é isto? Passar a frente de tudo o que não interessa por um capricho? sim, um capricho. Que se lixe a TLEBS!!! Grandes mudanças? Quem poderia aplicar as mudanças? Só nós estagiários!!!! Pedem a professores com 30 anos de carreira para esquecerem a gramática tradicional. Mas o que é isto? A que propósito? Alguém pode ter alguma sensibilidade e educação para não instalar uma guerra e explicar? Sou estagiária e já perdi a noção da importância da TlEBS... Pisar pessoas não vai ao encontro daquilo que eu esperava. Não. Não. 2007 vai começar mal. Sim, mal...Injustiça em Portugal. Pisaram-me... Não se brinca com o fogo. Não é sensato aplicar métodos de tortura a futuros professores. Cuidado, as minhas forças podem se concentrar. Eu sou humana, não tolero humilhações, principalmente de alguém que me devia orientar e que é a pessoa que mais me despreza. O futuro está em nós, não é bom nos tratarem assim. Hoje estou capaz de levantar uma revolução!!! Falta a voz! Não tenho a educação da ministra, graças a deus que me deram olhos do povo! Sou uma entre muitos, mas a mim magoa-me ser pisada e não vou deixar ficar para trás. A TLEBS é mais importante que os professores que a vão leccionar? Como é que o abstracto pode viver sem o concreto? Já é difícil conciliar forças contrárias. O estágio é feito de hierarquias e cada camada mais elevada que nós tem uma posição diferente. É uma vergonha. Ninguém se entende. Dão supervisões e cadeiras de metodologia a quem não entende nada, mas nada de educação. Eu sei que não posso ser professora. Eu tenho vergonha de ser professora!!!! 20 anos a estudar para quê? 2007 vai trazer mais agonia. já não suporto o mundo. É impossível saber o que sei e ensinar. Quero pedir desculpas a todas as crianças de Portugal, mas poucos terão a sorte de conhecer o que os ensinou...Estamos a criar um país de burros, é esse o objectivo... só assim se pode criar uma ditadura...1974 foi um ano como tantos outros. Chega de ilusões...A quem estou tentar enganar?
18 novembro 2006
auto retrato
Composição: Florbela Espanca
voz: Mariza
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
voz: Mariza
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
09 novembro 2006
O Beijo

Reproduzir o já vivido é impossível. Esta tentativa, não é de todo tentativa mas outra reprodução. Até porque não sei se seria mais doloroso repetir de novo as mesmas sensações.
Tudo corria bem quando me deixavas com o viajar dos meus olhos, sempre deambulando entre os teus olhos e lábios. Os teus olhos expressavam aquilo que queria ouvir e os teus lábios aquilo que queria sentir. Ah, os teus lábios moldáveis, tristes e alegres quando falavam, sempre em movimento denotando um nervosismo não desvendado. E quando dormiam? Sossegados um encostado no outro, como num beijo eterno, sentido um calor macio que os confortava. Pareciam tão bem, tão indepedentes. e os meus sentiam-se sós, necessitavam daquela harmonia, de alguém que os ensinasse a ser um corpo e não parte dele. Mas essa aprendizagem deveria ser só eu a dar. Eu deveria ensiná-los a ter personalidade própria, não seguir ninguém, não invejar ninguém. Porquê tu não deixaste? Que direito tinhas tu de os orientares para determinado sentido? Parecia que pousaste um veneno quente e doce nos meus lábios. Num momento nada me parecia mau, tudo se revelava como imaginei. Lábios com sentimento, fosse ele qual fosse. Até que descobri qual o sentimento que domina os meus e ia de encontro ao domínio que os teus lábios impunham. Poderia ter te parado. Mas deixei o momento correr e beijaste e sorriste e ficaste sério e falaste e ouviste e calaste-te e pousaste os olhos no chão para não me veres a ir embora.
Tudo corria bem quando me deixavas com o viajar dos meus olhos, sempre deambulando entre os teus olhos e lábios. Os teus olhos expressavam aquilo que queria ouvir e os teus lábios aquilo que queria sentir. Ah, os teus lábios moldáveis, tristes e alegres quando falavam, sempre em movimento denotando um nervosismo não desvendado. E quando dormiam? Sossegados um encostado no outro, como num beijo eterno, sentido um calor macio que os confortava. Pareciam tão bem, tão indepedentes. e os meus sentiam-se sós, necessitavam daquela harmonia, de alguém que os ensinasse a ser um corpo e não parte dele. Mas essa aprendizagem deveria ser só eu a dar. Eu deveria ensiná-los a ter personalidade própria, não seguir ninguém, não invejar ninguém. Porquê tu não deixaste? Que direito tinhas tu de os orientares para determinado sentido? Parecia que pousaste um veneno quente e doce nos meus lábios. Num momento nada me parecia mau, tudo se revelava como imaginei. Lábios com sentimento, fosse ele qual fosse. Até que descobri qual o sentimento que domina os meus e ia de encontro ao domínio que os teus lábios impunham. Poderia ter te parado. Mas deixei o momento correr e beijaste e sorriste e ficaste sério e falaste e ouviste e calaste-te e pousaste os olhos no chão para não me veres a ir embora.
17 outubro 2006
porque é bom relembrar
desculpa Tiago, mas teve que ser. se te importares elimino, mas para já preciso de mostrar isto. Ri-me às gargalhadas. que saudades das aulas!!! tenho saudades do M.Ra!!!!Não tanto como J.V. claro...:)
frases cómicas dos nossos mentores :
"Não é grande coisa, o rei Artur..." (A.S.L.)"
Não vai ser agora, se não ainda arrancam a cadeira e dão-me com ela na cabeça..." (P. Tav.)
"A Menina e Moça não é um OVNI" (Far.)
"Vamos todos queimar as aulas" (Far.)
"os deuses têm pouco que fazer"(Far.)
"isto são coisas de quem não tem mais nada para fazer" (Far, acerca das funcionárias da secretaria)
"o prof. é um chato..." (Far, sobre si mesmo)
"é sex, mas é assim que se escreve..." (Far.)
"podem comprar... desviar, roubar os livros..." (Far.)
"a empregada eclipsou-se" (Far.)
"Vamos é falar da selecção nacional, do Ronaldo e do Cristiano..." (L. Gr)
"O sistema entra em qualquer fechadura" (L .Gr.)
"Isso não me interessa nem um átomo." (Cl. Brr.)
"Eu fui aluno do Roland Barthes" (Ar. Sar.)
"Coitadinho do leão, que não tem nenhum cristão para comer!" (criança romana, citada por F. Tp.)
"Se comerem a árvore..." (M. Ra., citando a serpente do Génesis)
"Eu agora estava a delirar..." (M. Ra.)
"É um poema quase só de versos..." (=verbos, M. Ra.)
"Depois vou-vos usar..." (M. Ra., = vou-vos mostrar como se usa)
"o alfa negativo tem carga negativa" (M. Ra.)
"uma pessoa que trabalha no correio chama-se... correio"
M. Ra.)"a nossa sociedade é mais epicurista do que estoicisma..." (M. Ra.)
"Uma obra muito famosa, sabem quais são?" (M. Ra.)
"É uma criação inventada pelos gregos" (M. Ra.)
"Foi uma irreverência muito bem pensada" (M. Ra.)
"Ando sempre a fechar as luzes" (M. Ra.)
"é muitíssimo velo" (M. Ra.)
"protuguês... petroguês..." (=português????) (M. Ra.)
"via muito-a" (M. Ra.)
"dactilorgarfar" (M. Ra.)
"Eu savia, tu savias, ele savia..." (M. Ra.)
"A Sapo já não é assim..." (=Safo; M. Ra.)
"o ta marbuta pode ser inspirado (=aspirado) na leitura" (Ab.)
"vulcães" (Ab.)
"O vosso colega perguntou uma pergunta que disse..." (Ab.)
"o árabe é uma língua semética" (Ab.)
"abertura e fechadura" (Ab.)
"Flexblidade" (Ab.)
"soltero" (Ab.)
"vocês têm tanto bagagem" (Ab.)
"traços para peões" (=passadeiras; Ab.)
aluno: "Não há nenhum contexto em que se distingam?"prof: "Sim, sim, são iguais" (Ab.)
"antecida" (=antecedida; Ab.)
"as morfemas" (Ab.)
"Escreví" (escrito assim no quadro...; Ab.)
"Recadeiras" (G. M.)
"pertinância" (G. M.)
"linga" (S. Car.)
"prótagonistas" (P. Tav.)
frases cómicas dos nossos mentores :
"Não é grande coisa, o rei Artur..." (A.S.L.)"
Não vai ser agora, se não ainda arrancam a cadeira e dão-me com ela na cabeça..." (P. Tav.)
"A Menina e Moça não é um OVNI" (Far.)
"Vamos todos queimar as aulas" (Far.)
"os deuses têm pouco que fazer"(Far.)
"isto são coisas de quem não tem mais nada para fazer" (Far, acerca das funcionárias da secretaria)
"o prof. é um chato..." (Far, sobre si mesmo)
"é sex, mas é assim que se escreve..." (Far.)
"podem comprar... desviar, roubar os livros..." (Far.)
"a empregada eclipsou-se" (Far.)
"Vamos é falar da selecção nacional, do Ronaldo e do Cristiano..." (L. Gr)
"O sistema entra em qualquer fechadura" (L .Gr.)
"Isso não me interessa nem um átomo." (Cl. Brr.)
"Eu fui aluno do Roland Barthes" (Ar. Sar.)
"Coitadinho do leão, que não tem nenhum cristão para comer!" (criança romana, citada por F. Tp.)
"Se comerem a árvore..." (M. Ra., citando a serpente do Génesis)
"Eu agora estava a delirar..." (M. Ra.)
"É um poema quase só de versos..." (=verbos, M. Ra.)
"Depois vou-vos usar..." (M. Ra., = vou-vos mostrar como se usa)
"o alfa negativo tem carga negativa" (M. Ra.)
"uma pessoa que trabalha no correio chama-se... correio"
M. Ra.)"a nossa sociedade é mais epicurista do que estoicisma..." (M. Ra.)
"Uma obra muito famosa, sabem quais são?" (M. Ra.)
"É uma criação inventada pelos gregos" (M. Ra.)
"Foi uma irreverência muito bem pensada" (M. Ra.)
"Ando sempre a fechar as luzes" (M. Ra.)
"é muitíssimo velo" (M. Ra.)
"protuguês... petroguês..." (=português????) (M. Ra.)
"via muito-a" (M. Ra.)
"dactilorgarfar" (M. Ra.)
"Eu savia, tu savias, ele savia..." (M. Ra.)
"A Sapo já não é assim..." (=Safo; M. Ra.)
"o ta marbuta pode ser inspirado (=aspirado) na leitura" (Ab.)
"vulcães" (Ab.)
"O vosso colega perguntou uma pergunta que disse..." (Ab.)
"o árabe é uma língua semética" (Ab.)
"abertura e fechadura" (Ab.)
"Flexblidade" (Ab.)
"soltero" (Ab.)
"vocês têm tanto bagagem" (Ab.)
"traços para peões" (=passadeiras; Ab.)
aluno: "Não há nenhum contexto em que se distingam?"prof: "Sim, sim, são iguais" (Ab.)
"antecida" (=antecedida; Ab.)
"as morfemas" (Ab.)
"Escreví" (escrito assim no quadro...; Ab.)
"Recadeiras" (G. M.)
"pertinância" (G. M.)
"linga" (S. Car.)
"prótagonistas" (P. Tav.)
14 outubro 2006
Estágio
Quem me dera ter tempo para reflectir o que é o estágio. Ter tempo para dizer que sim, que o estágio requer muito trabalho, que gosto ou não do estágio. Mas em vez disso o meu pensamento recai sobre insignificações. E se as significações começam a ganhar algum contorno de concreto, a minha mente foge para um campo de ilusão.
É assim que me tenho sustentado, de sonhos, ilusões, criações. Adormeço a sonhar, acordo com outro sonho a desenvolver. Mas o meu espaço de eleição para sonhar não é enquanto durmo, mas enquanto viajo. Que sítio mais perfeito, se não numa viagem onde a imaginação pode ganhar asas. E parto do concreto, uma pessoa torna-se minha vítima, sei de onde veio, para onde vai, o que pensa, onde trabalha e a rotina do seu dia a dia. Não existem pessoas no metro que não sejam rotineiras. A começar por mim...o sonho é a rotina da minha vida neste momento.
A escrita não consegue vivenciar aquilo que me faz respirar todos os dias. Há um amor dentro do meu coração, um conforto, uma paz que me faz levantar todos os dias. Tenho transportado esse amor nos meus olhos e onde eles tocam eu apaixono-me. Apaixono-me por aquilo que não conheço e por aquilo que já conhecia. Há uma amálgama de sentimentos e pessoas dentro de mim. E com tanta confusão dentro de mim, tantas pessoas a falarem ao mesmo tempo, tantas pessoas a amarem-me de diferentes maneiras, sinto-me só. Sou a ervilha esquecida no prato, a primeira gota de indício de chuva que a ninguém tocou, o sonho de quem ninguém se lembra...
É assim o estágio. Um ano isolado, que não representa o futuro, nem o passado. Um ano de emoções únicas, nunca mais vividas. Um ano de tentativas de humilhação e superioridade. Sou a senhora doutora e a estagiária. "Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei... " e já agora porque não:
"16
Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular...
Soltas as rédeas,
Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar
A torre de oiro que era o capo da minha Alma,
Transviarão pelo deserto, moribundos de Luar
-E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...
Nos oásis depois hão-de se abismar gumes,
A atmosfera há-de ser outra, noutros planos;
As rãs hão-de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...
*
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
- Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
............................................................................
............................................................................
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...
(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...) "
Lisboa, Maio de 1914, Sr Mário de Sá-Carneiro
ps: é me impossível passar isto como poema, fazer paragráfos ou espaçamentos, pelo facto, as minhas desculpas.
É assim que me tenho sustentado, de sonhos, ilusões, criações. Adormeço a sonhar, acordo com outro sonho a desenvolver. Mas o meu espaço de eleição para sonhar não é enquanto durmo, mas enquanto viajo. Que sítio mais perfeito, se não numa viagem onde a imaginação pode ganhar asas. E parto do concreto, uma pessoa torna-se minha vítima, sei de onde veio, para onde vai, o que pensa, onde trabalha e a rotina do seu dia a dia. Não existem pessoas no metro que não sejam rotineiras. A começar por mim...o sonho é a rotina da minha vida neste momento.
A escrita não consegue vivenciar aquilo que me faz respirar todos os dias. Há um amor dentro do meu coração, um conforto, uma paz que me faz levantar todos os dias. Tenho transportado esse amor nos meus olhos e onde eles tocam eu apaixono-me. Apaixono-me por aquilo que não conheço e por aquilo que já conhecia. Há uma amálgama de sentimentos e pessoas dentro de mim. E com tanta confusão dentro de mim, tantas pessoas a falarem ao mesmo tempo, tantas pessoas a amarem-me de diferentes maneiras, sinto-me só. Sou a ervilha esquecida no prato, a primeira gota de indício de chuva que a ninguém tocou, o sonho de quem ninguém se lembra...
É assim o estágio. Um ano isolado, que não representa o futuro, nem o passado. Um ano de emoções únicas, nunca mais vividas. Um ano de tentativas de humilhação e superioridade. Sou a senhora doutora e a estagiária. "Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei... " e já agora porque não:
"16
Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular...
Soltas as rédeas,
Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar
A torre de oiro que era o capo da minha Alma,
Transviarão pelo deserto, moribundos de Luar
-E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...
Nos oásis depois hão-de se abismar gumes,
A atmosfera há-de ser outra, noutros planos;
As rãs hão-de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...
*
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
- Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
............................................................................
............................................................................
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...
(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...) "
Lisboa, Maio de 1914, Sr Mário de Sá-Carneiro
ps: é me impossível passar isto como poema, fazer paragráfos ou espaçamentos, pelo facto, as minhas desculpas.
23 setembro 2006
Paixões

Amo a vida, dou importância aos momentos de paz. Quero descanso. Poder encontrar-me. Pede-se alguém que se vir uma alma perdida, será a minha. Não sei onde a deixei no meio da confusão. Quando estou perto do mar parece que me alivia a saudade de mim. Poderei alguma vez retornar a minha paz. Confissão de Madredeus e o mar.
26 agosto 2006

Chegar de férias é um pesadelo. Deus fez as férias e as malas o Diabo. Saudades transformadas em lágrimas na viagem de regresso ouvindo Zeca afonso " No monte é que estou bem, onde na veja ninguém, ai, no monte é que estou bem." Mas na verdade via muita gente, mas sentia-me tão bem... Às vezes arrependo-me de não ter feito aquilo que me apetecia fazer, outras vezes agradeço a deus por não o ter feito, sabe-se lá as consequências de uma queda que aparenta ser livre mas pode ser fatal. Mas saudades é o termo certo daquilo que sinto, uma dor alegre, um passado irrepetível, mas que me marcou e isso, embora não suficiente, marca a ruga do sorriso no canto da boca que se vai acentuando com as diversas experiências vividas. Penso sempre que estou velha e que já nada de novo me acontece e de repente espanto de ver a criança ainda contida em mim. A alegria, o pouco que basta, o demais que não é suficiente, a imaginação que desenlaça saudades de um real vivido só por mim. ah, a montanha, os passeios às estrelas, o som da água a acompanhar os meus passos, o ruído da madeira a ranger quando há algo que se contorce cá dentro, as folhas esverdejantes das árvores e o calor a apertar-me as mãos. A energia que se libertou e se alastrou... Nasci no mar, mas morro na montanha.
21 julho 2006
O meu acto heróico
Náusea. É o que sinto agora quando me lembro e o que senti quando estava naquela situação de pressão. Pressão proposta inevitavelmente por mim. Estava sozinha e mal disposta. Medo. Muito medo. O calor deixava as minhas mãos geladas, mas escorregadias, tornando-se impossível agarrar a caneta. Era necessário manter a calma. Chegaram as duas pessoas que eu mais temia, sorridentes, calmas. Piorou a minha situação, estava à espera do seu estado habitual de irritação arrogante, mas nada de bocas superiores, nem alertas temerosos. Fiquei em pânico. Nada do que eu esperava estava a acontecer. Ninguém que eu conhecesse. Um rapaz de face reconhecível decidiu ficar a meu lado. Mas em vez de estar compenetrado na sua escrita, apoiou as costas à parede de maneira a que eu pudesse vislumbrar uma sombra de uma cabeça totalmente virada para mim. Podia até ser impressão minha, mas mesmo que o olhar não pesasse ainda mais a minha cabeça, ele não escrevia. Nada. Eu comecei a escrever, irritada com a cabeça lateral. Encolhi-me e tentei escrever. Olhei para as frases e desenhei as palavras que me pareciam de focar. Ele nada escrevia, só olhava... A caneta escorregava. A minha cara contorcia-se. Transpirava. Eram 9 horas e o calor tornara-se irrespirável. Escrevi gotas de suor pausadamente. Lembro-me das caras que se avizinhavam. Lembro-me das roupas primaveris das duas mentoras. Mas não me lembro de mim. Náusea. Eram 11 horas e decidi não continuar com o sacríficio. Pouco antes o rapaz decidira desistir, apoiando-se de outros seus colegas com a mesma atitude. Entreguei o exame e com um esgar de coragem palavras saíram da minha boca: " Qua..quando...saíram as notas?" . A Sampaio levanta o olhar e pausadamente ordena-me que repita a pergunta à Celina Silva, demonstrando a sim a superioridade desta última. Congelei, os meus olhos pararam, as minhas costas não se voltaram à procura da resposta à minha pergunta. Sinceramente, o meu propósito não era saber a resposta, já que tinha decidido nem me dar ao trabalho de ver o pobre resultado, mas sim dirigir-me a uma delas uma vez na vida na tentativa de superar medos ridículos. ( é natural que eu tema aranhas, porque não falam, não me dizem que caminho vão tomar quando começarem a fugir, mas humanos eu tenho obrigação de compreender) Perante a minha posição estática, Sampaio levanta-se do lugar e dirige-se à Celine Silva. Após um longo sussuro, a Celina faz soltar uns grunhidos direccionados a mim. Limitei-me a acenar. Não sabia se já tinha acabado. Hesitei se saíria ou não da sala. Devo ter corrido até ao corredor, confirmando que não viria à procura de uma nota. Esse dia foi horrível. Primeiro dia de férias é sempre horrível, muito mais quando não se sabe o que o futuro traz. Hoje soube que a minha nota deste último exame foi mais do que uma mera positiva e assim acabei a licenciatura. Acabei-a com náusea. Nauseabundas foram as pessoas com que eu estive neste dia. Esperava mais admiração, mas apenas tive um parabéns. Não fiz anos, não é uma coisa que eu faça sem querer... Náusea... Será que estou feliz? Parece que acabar uma licenciatura não é das etapas mais marcentes da minha vida. O que me deixa feliz é poder dar um sorriso à minha avó. Deixá-la sentir que foi primordial para o meu sucesso. Se acabar a licenciatura deixou um sorriso na minha avó, sim, já é uma etapa importante adquirida. Mas só descobri o objectivo no fim:)
25 abril 2006
Insignificâncias
Ontem, 24 de Abril, senti que tinha conquistado o mundo. Que tinha conquistado alguém. Mas apenas me conquistei a mim. Tudo me pareceu perfeito. Nada poderia ser diferente. Ao princípio tinha dúvidas, mas logo se dissiparam quando o vi. O coração bateu forte, uma alegria e saudade deixaram-me roseada. É alguém que eu admiro. Alguém que não me importava de falar o dia e a noite toda. Alguém com quem queria almoçar, conhecer a família, conhecer os livros que estão na estante, os filmes desarrumados perto do dvd. Alguém que me soube fazer rir como mais ninguém. Alguém que me motivou e fortaleceu. Alguém que despertou em mim a minha paixão. Tenho vontade de agradecer, de o abraçar. Pedir que cuidasse de mim como um pai, um irmão mais velho. Mas está fora de questão. Admiro-o demasiado para poder abraçá-lo, para poder conversar com ele, para poder rir como ri. Olhá-lo é suficiente. Tudo se transforma. Mas o grande dia ainda está para vir e virá. O dia em que ele marcará o princípio de outra fase da minha vida. Aquele que eu escolhi para me abençoar perante o mundo. Aquele quem eu queria ser. Exigente, divertido, responsável, brincalhão, bem disposto, educado. Tudo o que me ele ensinou foi pouco mas estimulante. O que queria era ser colega de profissão. Era o meu sonho. Poder ser tão competente como ele. Participar ou ser ainda mais activa na busca de novas descobertas linguísticas. Queria que ele prefaciasse o meu livro. Foi ele que me despertou para a vida, para fazer aquilo que eu gosto. É a ele que devo toda a minha felicidade profissional. Agora só depende de mim conseguir conquistar o meu sonho. Seguir linguística. Investigar as evoluções, entrevistar exemplos e excepções, perceber a fuga às regras. Amar o meu país à minha maneira. Descobri como amar Portugal, como me identificar com o meu país. É a língua que nos une. Quero compreendê-la e antecipar mudanças. Quero. E agradeço fazer-me querer.
19 abril 2006
Sentir o desprezo de outrem por mim é realmente uma sensação que precisa ser explicada.
Desprezo significa importância, embora negativa. "Sinónimo" de asco, repugnância. Mas o ser humano é complicado e entra em contradições, por isso todas as atitudes devem ser perdoadas e compreendidas. Por isso aquele que foge, que não me toca, que me diz para me afastar é o mesmo que logo se aproxima, que me toca, que sorri.
A minha atitude perante essa pessoa é diversa. O que antes era choro agora é riso.
O que me entristece é a minha loucura e não a da outra pessoa. O que me entristece é como consegui que o outro sentisse nojo de mim. Será o que me entristece ou o que me amedronta?A minha imagem naquela pessoa está realmente denegrida. Será que sou sempre assim? Ou só com ela? O que sou? Como posso mudar de comportamento de pessoa para pessoa? Com certeza que outrem não sente asco por todos aqueles que conhece. Com certeza que os outros não tiveram as crises que eu tive e que outro ser humano teve de arcar. Mas porque tive essas crises? Culpa minha, claro. Mais ninguém para além de mim pode controlar o meu corpo e a minha mente. (Por isso sou punida se matar alguém ou roubar.) Mas o que me levou a ser assim? Será que sou sempre assim?? Agora não sou porque estou estagnada? Basta voltar a "viver" para me tornar um monstro asqueroso, torpe e infame? Como me posso evitar? Quando hoje me ri, pensei, "eu sou assim só para ela", porque ela é que me vê assim, "então como não há nada que possa fazer para mudar isso, basta lhe dar razão e tentar ser o mais repugnante possivel até chegar à humilhação". Mas será que a minha humilhação afecta a outra pessoa? O meu riso? Não será infantil? Acho que não. Apenas medo, perdição, o tentar encontrar-me, repôr pedaços destruídos.
Essa busca do impossível é consciente. Eu sei que não devo, que não me encontro, que me destruo, que me transformo, mas necessito. Há uma necessidade teatral em mim. Uma necessidade de me tornar outra personagem. De ser piada para o resto da semana. E é isto que faço. Tu és o outro que me despreza, eu sou aquele que se expõe, que se humilha e é desprezado. E estas minhas crises de escrita é que me tornam repugnante, quase grotesca...
14 abril 2006
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