23 abril 2008

Fortuna

" Bem afortunado és, leitor desta crónica, se ainda ignoras o que seja a saudade intoleravelmente minaz, o angustioso pasmo ante a realidade inaceitável, a impressão de solidão, vazio, injustiça, que, ao fim de alguns dias, nos causa a morte de um ser bem amado. Ah, vê-lo só mais uma vez, ouvi-lo uma última vez, tocar-lhe uma vez mais, dizer-lhe tudo o que nunca se lhe disse, remediar todo o mal que se lhe fez!... Bem afortunado és, leitor, se, ao evocar um fantasma querido, tão presente e já vago, tão senhor da sua alma e, todavia, já esfumando-se nos pormenores físicos, não sentiste ainda o incompreensível, o cavo, o pavoroso, o gelado desta expressão: nunca mais!... E o tempo que tudo lima- até sobre o ardor destas chagas espalha a sua cinza: No lugar da carne viva, só fica um ponto mais sensível e uma cicatriz."

in RÉGIO, José , O Príncipe com orelhas de burro.

21 abril 2008

"Há decisões que se tomam e se lamentam a vida toda e há decisões que se amarga o resto da vida não ter tomado. E há ainda ocasiões em que uma decisão menor, quase banal, acaba por se transformar, por força do destino, numa decisão imensa, que não se buscava mas que vem ter connosco, mudando para sempre os dias que se imaginava ter pela frente. Às vezes, são até estes golpes do destino que substituem à nossa vontade paralisada, forçando a ruptura que temíamos, quebrando a segurança morta em que habitávamos e abrindo as portas do desconhecido de que fugíamos."

TAVARES, Miguel Sousa, Rio das Flores, cap. XVIII

12 abril 2008

Vintela

Prefácio: muito complicado de se iniciar, mas assim ficou prometido.. Não sei se consigo falar na terceira pessoa, é bastante estranho para mim. Mas aqui vai a primeira e forçada tentativa.

errr... ou nao? começo como? a falar sobre o tempo? gostava que fosse no meio ja do acontecimento: in media res. depois voltavas para tras e explicavas... tipo assim:

Dia longo este... Já começava a custar a passagem da novidade para a rotina, o cumprimento dos horários, sempre as mesmas tarefas e conversas. Passavam-se semanas sem alguma novidade, até os livros lidos pareciam iguais. A monotonia ia-se instalando lentamente. Será que era possível sobreviver-se à mesmice? Ou será que a rotina poderia co-existir com um espírito tão insatisfeito? Ter que lidar com pessoas nunca foi das qualidades mais evidenciadas de M. (por favor descobre nome). Havia pessoas simpáticas que obrigavam-na a alargar o sorriso, havia pessoas rabugentas que aobrigavam a falar e deter-se em explicações inúteis. Por trás de uma secretária conheceu a cidade toda. Conheceu vícios e roupas, ouviu telefonemas e discussões. Nada despertava o seu interesse. Se possível desejaria estar num casulo escondido sem ter que lidar com espécies de seres humanos desejosos por falar. Menos um. Esse não falava. Era ele todo rotina: sempre no mesmo dia, à mesma hora. De semana a semana lá vinha ele, devolvia os livros, sentava-se a ler os jornais e revistas mais interessantes, escolhia mais dois livros quase sem interesse e ia-se embora. E nesse tempo fugaz de entrega e requisição de livros havia poucas palavras ou quase nenhumas. M. tinha um defeito/qualidade. Era esponja, absorvia as personalidades das pessoas e tornava-se igual. Se sorriam, sorria, se discutiam discutia, se se calavam, calava. Só este a olhava e ela também olhou. (blarghhhh). destrui a minha inspiraçao... aqui esta o primeiro rascunho. continua.




Nao consigo... Conto eliminado. A pressão foi muita, os sentimentos demasiado imaginados. blargghhh

22 março 2008

Rio das Flores

Chovia. O mergulhar das gotas na terra fazia um barulho reconfortante. Ao fechar os olhos parecia que conseguia ver qualquer coisa mais do que chuva. Como se fosse flor e precisasse de viver, Rosa ou Margarida, como lhe quiserem chamar, adorava chuva e o cinzento. Adorava barulhos: o dos trovões, o das janelas e o do chão marmóreo quando batia água. Nesses momentos sentia-se bem, mas incompreendida. Ninguém à volta dela sentia tanto a chuva. Talvez fosse por ser a única africana no mundo dela. Dava sentido ao tempo, à música, à dança. Até o descascar de uma batata parecia belo.
Ela pensava que houvera outrora alguém que a compreendia. Tinha vida e alegria, tudo nele parecia a luz de uma estrela.
Ele ficava à espera, nem o sol ainda aquecia, para a ver ir à mercearia. No princípio, ele metia conversa, mas ela não ligava, nem respondia. Ele sempre dizia que ela era a flor do seu jardim. Rosa/ Margarida parecia não ligar às falinhas mansas de Joaquim. Mas lá dentro, ainda no quentinho do seu quarto, já sabia que ele já estava de olhos postos na sua janela à espera da hora que ela fosse fazer as compras para casa.
Começou a ficar feliz, sentiu-se importante. Já mostrava sorrisos e aos poucos e poucos deixou Joaquim levá-la a passear.
Ele mostrava lugares diferentes, dizia mil e uma palavras bonitas. Ela sentia-se mais rosa que margarida. Namoraram. E aos poucos e poucos Joaquim foi perdendo a graça. Já não a esperava de manhazinha, não lhe dava flores pelo moço do correio, não lhe dizia coisas bonitas, nem a levava a passear. Ela pensava que tinha que ser assim. A mãezinha tinha lhe dito, Joaquim é homem bom, não se deita fora. E assim, Margarida ficou com Joaquim sem paixão. Viviam a vida como se não houvesse nada. Joaquim não achava bonita a chuva, nem o descascar de batatas. Margarida sentia-se só quando estava com Joaquim. Sentiu-se flor murcha. Não entendia como o espectáculo de um mar revolto podia acabar num lago pantanoso. Ela sempre foi amante de tempestades, sempre gostou de coisas alegres e com vida. Chorava até quando havia festas de tanta alegria que havia nela nesses dias. E Joaquim fez festa e deixou-se ficar. Os balões começaram a murchar e Margarida não sabia se havia de os limpar ou não. Olhava para a chuva como que a pedir resposta. Joaquim já parecia o seu sofá de tão acomodado estar. Ela não queria sofá, ela queria fogão cheio de brasas e que lhe dava alimento para viver. Mas não disse nada, não podia falar. Mãe disse se falasse estava a pedir e ainda por cima pedir não ia fazer Joaquim sentir o que estivesse a fazer. Não dava bom resultado.
Margarida então, deixou de ser Rosa, viveu murcha por mais algum tempo, apagada e sem cor. Joaquim não sentia, não via. Não sabia que para cuidar de uma flor precisava de dar a sua vida.
Assim estavam os dois mortos, um sentia que estava, o outro nunca o soube.

05 março 2008

Taxi!!

Pois é, ao ler a revista Notícias deparei-me com um tema nada interessante: conversa de taxista. Ora, li até ao fim a ver se havia qualquer filosofia implícita, mas não... Só explicava o já sabido. Que eles falam e nós respondemos. Agora também podemos dizer que nos sentimos na obrigação de começar uma conversa. Há aquelas frases sobre o tempo ou o último jogo de futebol que servem para despoletar conversas acesas. O meu pai, Deus o tenha no Céu (ou qualquer coisa do género, nunca fui muito de usar estas expressões, nem vejo o significado), era um desses que simpatizava com os taxistas. Sorria e começava a conversa de queixas sobre este país: desde o tempo ( "agora está sempre sol, este mundo está maluco", "esta chuva deixa as pessoas mais carrancudas", "este calor não é normal", "está um frio que não se aguenta", "o tempo está ameno, é estranho"), sobre políticas e mais que tais. Ora, lembro-me de uma situação, tinha eu 18 anos, Áurea meses, e decidimos ir de taxi até ao Hospital de São João. Dessa vez pai não foi, mas mãe para manter o espírito da coisa, começa a falar do que não sabe: política... O taxista, bom falador e mau condutor, fala com o coração e sem cabeça sobre o que o enerva, sobre o seu árduo trabalho e sobre a que está sujeito. Conclusão, era ele virado para trás e a estrada a diminuir à nossa frente. Mãe já arrependida pedia por favor para ele olhar para a frente, já dizia para não se enervar, anuia a tudo o que ele contava para não chamar mais sangue a cabeça do homem. E assim se fez uma viagem de terror na intimidade de um carro desconhecido. Já confíamos muito num taxista ao deixar-nos levar onde nós queremos, acho que não é preciso falar do nada. O estranho é que eles gostam do nada, tanto que se irritam ao falar dele. Parece mais uma barbearia, na qual estamos sujeitos a levar uma navalhada se dissermos alguma asneira. Numa damos o nosso pescoço, noutra só temos que dar o nosso silêncio.

27 fevereiro 2008

Reviravolta

Faz hoje cinco meses que a minha vida mudou drasticamente. Desde aí que fujo a qualquer sentimento e mesmo assim, há dias em que não consigo controlá-los. Cinco meses de total instabilidade. No meio deste turbilhão, fechei-me para mim própria. A solidão traz-me calma. E, no momento em que parecia estar à deriva no oceano, pequenas e antes insignificantes vozes vieram preencher o meu mundo.

Deixei de pensar nos outros e isso libertou-me para outras aventuras. Espero não me vir a arrepender. No estado insensívelmente sensível em que me encontro julgo conseguir controlar tudo o que me rodeia e isso dá-me forças para fazer loucuras. O que dantes pensava que era uma exposição vergonhosa, agora é uma experiência enriquecedora. Se magoo, se envergonho alguém já não são preocupações, apenas meras insignificâncias.

Ficar à espera não era solução, tomei a iniciativa de um reencontro com o passado. Não espero vivê-lo outra vez, apenas mostrar que o próprio passado pode ser modificado. Basta mudar a perspectiva presente. Eu tenho o poder de mudar o meu passado. De não o ver tão amargo e esquecido. Daí eu ter tomado a iniciativa de ir ter com ele. Pode acontecer uma de duas hipóteses: gostar, sentir saudade e voltar a repetir; ou, então, ser vez sem senão. De qualquer das formas foi a melhor opção que tomei, porque é assim que me sinto uma pessoa especial.

Ainda faltam uns dias, até lá não sei se me deva preparar ou tentar me esquecer do dia. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Às vezes o coração bate mais forte ao pensar no olhar que me espera. Olhos que devoram o que ouvem. Infelizmente este sentimento de interesse está algo desgastado. Poucas são as pessoas que me olham dessa forma. Só o polícia se eu cometer algum crime, ou a empregada do Sr Mário se eu contar a minha vida. Cansei-me de esperar que alguém me olhasse assim e convidei os olhos. Para já só os olhos. Não consigo vivenciar tudo de uma vez só, embora seja isso o que eu tentarei fazer. Exaltar todas as minhas qualidades sem que saia palavra da minha boca.

Uma flor esquecida no meio de ervas daninhas perde a cor. Basta mudar o ambiente para ela ser mais flor e não tão erva. Ser diferente é só no meio de iguais.

16 fevereiro 2008

Dedicatória

A todos que eu admiro dedico estas palavras de agradecimento. Aos meus orientadores e professores da vida, aos meus companheiros das más horas, àqueles que me fazem sentir especial. A esses todos agradeço por me fazerem sentir alguém, por mostrarem que todos nós somos importantes e temos um papel na vida. Por descobrirem em mim alguém maior do que eu e por me desafiarem a consquistá-lo. Obrigada pelos conselhos, sinto-me muito orgulhosa por poder ouvir palavras de amizade provindas de Senhores tão lá no alto, num patamar de um mundo muito mais civilizado que o meu. Obrigada por me estenderem a mão e me aconselharem a subir. Para já agradeço e prometo pensar em estratégias de como ser alguém como vocês. Obrigada por ainda terem esperança em mim e realçarem o melhor que há em mim sem sequer pronunciarem palavras gastas.

15 fevereiro 2008

Hoje sinto-me mais viva do que nos outros dias. Senti necessidade de eternizar a vida pela escrita. São tantas as coisas que eu posso escrever e ao mesmo tempo tudo parece tanto e tão pouco. O meu primeiro emprego, por exemplo. Era um tema interessante por onde podia divagar. Uma biblioteca é sempre um espaço motivador de divagações. O silêncio, a pressão dos livros sobre a imaginação humana, as pessoas que também gostam de ler livros e que são, ao mesmo tempo, tão diferentes de mim. Um livro não aproxima. Um livro por si só é uma companhia. Ver sempre as mesmas pessoas num espaço é um pouco claustrofóbico. Todavia, os livros são uma abertura para outro mundo. E, assim ando entre dois ou três mundos. Sinto que a minha expressão facial é de uma aluada. Não vejo as pessoas, vejo seres iguais. Sinto que eles sabem que eu nao olho para a alma deles, que nem lhes chego a tocar com o meu olhar. O mesmo se passa com o mundo pueril, mas a estes posso eu tentar que venham para o meu mundo. E então conto-lhes histórias e ouço as histórias que me têm para contar. Depois também tenho o privilégio de ter um contacto mais físico com o livro. De o abrir pela primeira vez, de sentir o seu cheiro virgem e tirar essa virgindade, de o alterar, de o apoderar.
Porém, não é disso que me apetece falar. Apetece-me falar da vida e das sensações. Onde foram elas? Suponho que perdi uma parte de mim quando uma parte que me criou desapareceu. Vive-se sem sensações. Vive-se bem disposto. Não se liga ao futuro, nem ao presente, nem ao passado. Olho o passado com olhos de velha calejada, o futuro com cataratas e o presente com os pulmões. Medo de um dia não conseguir respirar. Engulo o ar como se fosse o último. Deve ter sido por isso que Milão para mim não despertou tanta magia como Paris pela terceira vez. Milão novidade, cidade com carisma. Vi vida na via Dante e laivos na zona do Naviglio. Eternidade/efemeridade vi na Última Ceia. Mas mais não foi. Nem as viagens de eléctrico me fizeram vivenciar aquela magia de uma cidade nova, de um país novo. Itália. País de língua cantada.
Deve ser cansaço. Cansaço de tentar viver e não conseguir. Sono, desejo de sonhar. Um sonho de um país de ilusões, que me faça descansar e não correr para tentar satisfazer o insaciável.
O sono venceu. Nem escrever me é permitido. Lamento estas frases desconchavadas. Para já é o que sai. No futuro serão mais cegas.

31 dezembro 2007

2007

No último dia de 2007 arranjo coragem para tentar extrair algumas palavras de mim. Coisa nada fácil e constrangedora. Dedico esta escrita aos já falecidos. Aqueles que não passarão pelo ano 2008. Um futuro nunca conhecido e talvez desejado. Eu, porém, preferia voltar atrás. Começar 2007 do início. Mudar o ano que se passou. Poder ressuscitar o meu pai ou pelo menos ter a possibilidade de falar com ele. De agradecer tudo o que me ensinou e pedir desculpa por tudo o que não fui capaz de perdoar. Pudera eu sentir esta dor pelos ainda vivos. Virar-me para o futuro e alterá-lo. Aprender com a dor e não viver nela. 2008 vai ser um ano de dor. Um ano de solidão. O primeiro ano sem um pai. Sinto-me orfã. Perdida no mundo dos grandes sem as palavras sábias do homem que me orientou até aqui. Não quero novidades para 2008. Preferia que o mundo estagnasse, que nada continuasse. Sinto que o nada depois da morte é uma cegueira perante o futuro. Só resistem as memórias e há uma parede entre os vivos presentes e os mortos passados. Eu preferia que pudessem ver o futuro. Que nos ajudassem a ultrapassar os momentos mais felizes e duradouros. Para quê viver momentos marcantes se não posso dizer ao meu pai? Será que ele ficava orgulhoso se me visse a trabalhar? Será que eu trabalhava se ele estivesse vivo? Obrigada pai, por teres ido comigo até ao centro de emprego. Sinto isso como uma vontade de quereres que eu trabalhasse. Será que sabes? Quem me dera que soubesses...Que não te lembrasses de mim inútil e inconsciente. Como o dia de amanhã fosse igual ao de hoje. Não é... Aprendi da pior maneira. Mas não me queixo. Só te tenho de agradecer... Perdoa-me se não consigo. Preferia viver burra por mais tempo.

26 setembro 2007

Pensamentos bloqueados

Já há muito que queria fazer isto. Falta de coragem, de motivação, de inspiração. Há algo em mim que existe e ao mesmo tempo se esconde. Desde pequenina que sinto necessidade de captar os momentos como se fosse uma máquina fotográfica. Preciso de um papel para me exprimir, mas no momento é díficil deixar transparecer todas as emoções que senti num momento. Tenho o privilégio de poder sentir tudo excessivamente. Não sei se deva comparar com uma explosão de cores ou de cheiros, das duas uma. Uma harmonia, um preto ou um perfume, não importa. Antes de escrever desenhava. Sempre mulheres. Nada de ambientes, paisagens. Sempre o corpo humano feminino. Penso agora que seja porque queria que dele pudesse exprimir sensações. Gostava de dar algum movimento aos corpos. Roupas justas ou largas e leves. Nunca gostei de desenhar um corpo de frente a olhar para mim. Estava sempre distraído, natural, como se eu passasse por lá e sentisse que devia tirar uma foto aquela mulher. E tentei desenhá-la anos a fio. Mas nenhuma ficou perfeita. Depois descobri a escrita. Usei-a de forma despreocupada durante a minha infância, porém sempre com o desejo de que transmitisse sentimentos. Uns versos em dias de festejo, umas linhas diarísticas muito precisas, letras diferentes em cada dia. Sempre à busca de uma perfeição, há busca de uma expressão de mim.

Leio agora o que escrevi na minha adolescência e rio. Espero que sintais o mesmo que eu ao ler isto: " Fui paixão de muitos amantes, / calor de muitas brasas. / No meu coração errante,/ ninguém prende as minhas asas."

Atenção, não sou humilhada sem humilhar... Já agora, na leitura insaciavel dos meus diários fui dando de encontro com cartas. Cartas ridículas e infantis como a minha quadra. Por exemplo: "És daquelas pessoas , poucas neste mundo, que merece que tudo de bom lhes aconteça." Erros sintácticos à parte, há uma questão de semântica importante. A escrita deveria ser eterna, neste caso durou pouco o sentimento... Se bem que agora a frase ganhou muito mais sentido do que na altura:) E quem já não recebeu cartas com frases assim: " dizer que te amo, para mim é pouco, porque o que sinto é muito mais do que isso, o que sinto é algo de divino...". Melhor, frases de quem me insultou os piores nomes até hoje ouvidos: " Quero que saibas que te respeito muito, mesmo muito." Ou esta de quem me disse que tudo o que passou comigo não passou de uma aventura igual a muitas outras: "Contigo estou a passar um dos melhores momentos da minha vida. Um momento que me ficará gravado na memória". Pois...nota-se:)

Muitas cartas já deitei ao lixo, mas são todas iguais. Todas dizem esses sentimentos que as pessoas pretendem definir e que ao fim de contas chama-se ilusão.

Quantas vezes vou na rua e apetece-me gravar o momento. Momentos interessantes como as expressões das pessoas na fila da segurança social, pessoas no metro, funcionários do tribunal, o homem do talho, a sobrinha solteirona do homem mais rico de vila do conde. Uma fotografia apanha a pessoa e apaga o momento. Tempo passa por mim. Essas pessoas estão a sentir agora e eu a sentir com elas. Sinto por elas. O homem do talho a almoçar peixe a saber a porco, a funcionária do tribunal de cabelos grisalhos e loucos a cantar uma melodia que só ela conhece, pessoas no metro a pensar em pessoas no metro, a solteirona a pensar em sexo que nunca teve. Sou ou não a pessoa mais cuscuvilheira de vila do conde? O estranho é a minha paranóia com todos me conhecerem e eu não querer conhecer ninguém. Acho que quero sair daqui. Quem serei eu? A mãe solteira desempregada? Em que estarei a pensar aos olhos das outras pessoas? Não me importa o que elas pensem acerca de mim. Tudo me parece mais negativo do que realmente é. Devo ser um "frango tipo leitão":)

Desemprego

Setembro a acabar e a minha vida ainda não começou. Sinto-me embrião. Dias mais aconchegados que outros. Já tive mais vontade de nascer, agora não tenho pressa. Cada dia de sua vez. Hei de ser alguém um dia. Trabalhei muito tempo até chegar a embrião, daqui ou vida ou morte. A probabilidade de morrer é ínfima e só com alguns pozinhos de surpresas. Sinto-me enrolada no meu próprio cordão umbilical... Ando as voltas e ainda não descobri se estou a enforcar-me mais ou a desenvencilhar. Seja como for, cada volta uma descoberta. É aproveitar o nada.

22 junho 2007

Dias como o de hoje são raros de se viver. Pensava até que impossíveis. O ser humano é tão complexo. Cada dia é uma descoberta. Hoje descobri algo conscientemente. Descobri que há beleza no mundo. Um pequeno gesto como um olhar acompanhado de um sorriso, numa pessoa bela, torna o dia mais radiante. Encontrarmos alguém já há muito perdido, que nos elogia e nos valoriza, mostra o quanto somos importantes. Houve dias em que eu precisava de ver o quanto sou importante.
Por vezes esquecia-me, outras vezes deixava-me compenetrar nos pensamentos maléficos de pessoas egoístas. Sinto que a maior parte do tempo vivia por elas, sentia o que elas queriam que eu sentisse, transformava-me no que elas queriam que eu fosse.

Hoje senti-me eu!Um eu não conhecido, mas que despertou a curiosidade e amabilidade em outrem; um eu, por outro lado, esquecido, menosprezado e desvalorizado pelas pessoas que convivem comigo todos os dias e com o meu indesculpável consentimento. Foi esse menosprezo que me levou para os mundos da amargura, que me fez duvidar da existência de qualquer objectivo na minha vida. e foi essa valorização, esse olhar mais cativante sobre mim, que me fez sorrir e me deu forças para ser. Poucas pessoas são. Algumas preferem sentir alegria, sentir conforto, sentir dor, tristeza a ser. Ser não é sentir.

Só somos quando afectamos os outros e não a nós próprios. Nestes últimos tempos vi o que era sentir. Vi muitas pessoas sentirem. Ficarem presas a sentimentos. Fui objecto de desabafo de muitos sentimentos: uns condenáveis, outros inevitáveis. Senti também, como se fosse uma doença contagiante. Senti tanto que os sentimentos criaram em mim uma força tal que me foi impossível controlar. Eram várias vozes na minha cabeça. Um só ser não deve sentir tanto. Chorei. Converti os sentimentos em gotas de água. Claro que ainda sinto. Os sentimentos são inevitáveis, mas controláveis. Só os deixamos escapar quando pensamos que não somos.

Eu agora sou!!! Conheci o amor e não o vou perder. Este não é hábito. É algo que nunca me fará sofrer. Algo que eu me entrego de corpo e alma. Aquilo que me faz feliz e, mais importante, me faz ser. Quanto mais me entrego mais ele me dá vida. Dá-me força. Nunca experienciei tamanho poder. Todo o meu corpo emana uma energia que ninguém controla. O mais estranho é que nasceu de um momento para o outro. Só bastou um olhar que impulsionou o início de uma vivência nova e exigente. O olhar é imprescindível. Sem ele eu não existia. Mete medo pensar não ser olhada. Muito mais importante do que verificarem níveis da minha beleza e olharem para o meu corpo é verem a minha alma. Um arrepio sinto quando penso que de um olhar eu nasci. Vi-me na obrigação de continuar a ser. É uma promessa que aqui deixo. Sou, por ti!! Agradeço-te a coragem que me deste para a concretização dos meus sonhos. Agradeço-te não me teres pedido nada em troca. Agradeço-te o dia de hoje. Se algum dia te esquecer é porque me esqueci. Espero que sejas por minha causa tal como eu sou por tua. Só tu me viste até agora e agora. Pergunto-me se há só um olhar para cada ser? Sei que nem todos têm esse privilégio.. Será desequilibrado? Eu não consigo fazer o que me fazes a ninguém... Não há alma no mundo que eu conheça e ame... Parecem-me todas defeituosas. Que pretensão a minha! Eu sei:) Porém gostava de ver alguém.. Esta insatisfação da minha alma foste tu que a criaste!! Mostraste-me o outro lado da vida que muitos não conhecem e não compreendem... Ficam presos a preconceitos e vivências que tornam o amor perverso e odiável. Tu és um ser puro, longe de tudo o que conheci. Viste defeitos e qualidades, consegues criar outros defeitos e qualidades em mim.


Deixo-te este rascunho até quando vir que é suficiente. Depois outro rumo tomarei, tal como uma onda que amacia o chão onde pisas e volta de novo para o oceano.

21 junho 2007

Quando menos se espera acontecem situações imprevisíveis. Um telefonema estranho, um encontro inesperado, um olhar atrevido, o início de uma conversa entre dois estranhos. Para isso basta apenas a harmonia. Não sei de onde vem essa harmonia, se são astros ou átomos. Algo, porém, torna possível um novo acontecimento na vida de duas pessoas.
Estando sentada em cima de pequenas partículas sólidas que constroem um areal, um cão correu ao meu encontro e espalhou as areias de forma a que estas tivessem a liberdade de saltar para longe das suas vizinhas. Dei, momentaneamente, importância ao percurso de algumas partículas, temendo que estas se quisessem alojar em algum sítio do meu corpo mais sensível. Escapei a essa sorte e aí pude responder a felicidade enérgica do cão. Não passou muito até ouvirmos a voz preocupada e aborrecida do dono a chamar a atenção ao comportamento não apreciável do seu companheiro canino. O sermão foi suavizado pelo meu comentário que despoletou a conversa entre os dois humanos. Tirando a minha falta de assunto, tomei conhecimento das características do cão e as suas principais aventuras do seu primeiro ano de vida. Sorrisos surgiram naturalmente pela qualidade do interlocutor de dar um tom humorístico às situações relatadas. Senti admiração pela manutenção de um carácter tão jovial ao longo de tanto tempo e ao mesmo tempo tristeza pela solidão daquele homem, retirando prazer de uma pequena conversa social. Fiquei a observar de longe os dois companheiros a desaparecerem por entre a areia ondeante e verifiquei que estava sozinha. Não era o velho que estava sozinho, era eu. Ele apenas reparou que eu precisava de falar e dispôs-se a fazer esse sacrifício.
Agarrei num punhado de areia, levantei-me e deixei-a cair, naturalmente, da minha mão. Só uma partícula não caiu e senti que devia guardá-la.

Amanhã vou à praia levá-la para beira dos seus iguais. Talvez não estivesse bem num lugar e quisesse mudar. Pode ser que se sinta melhor noutro sítio.

Esperemos que sim.

12 junho 2007

gota de água

Uma gota de água deve ser valorizada. Arca consigo todo um simbolismo que nos escapa. Longe de mim entrar nos caminhos melindrosos da semiótica. No entanto, hoje, especialmente,há em mim um sentimento tão forte, tão poderoso e tão temeroso que me faz lembrar uma gota de água. Poucas são as pessoas que não substimam o poder deste ser aparentemente tão frágil.
Eu, porém, detenho-me, frequentemente, a olhar para as gotas de água mais vagarosas. Umas que caem do céu e estampam-se no vidro da janela do meu quarto. Sigo o caminho que percorrem e é díficil não imaginar a sensação de uma lágrima a escorregar pela minha face. Não quero de todo desviar-me daquilo que me impeliu a escrever. Nem era possível conseguir fugir a este sentimento. Não sei descrevê-lo, apenas poderei dizer que hoje sou uma gota de água. Mais não sei. As gotas são tão importantes que, apesar de mínimas, podem provocar excessividades e excentricidades. Acho que estou quase a atingir a gota de água que me impulsionará para o mundo da extravasão. Quando uma nuvem sente a necessidade de libertar o peso que a carrega ou quando um humano sente a vontade de exprimir a sua mágoa através de uma lágrima há o derramamento da gota de água. Aquela mais importante, que simboliza a necessidade de desabafar. Ora, eu, contraditoriamente, quando preciso de desabafar, retenho as gotículas dentro de mim e espero as suas consequências. Serão desastrosas. Há um demónio dentro de mim. Exalo uma energia negativa. Sinto que há invejas e mesquinhices ao meu lado. Apetece-me matar. Sim, matar. Ah... que vontade de saciar o meu apetite!!! Sorver a malignidade dos seres que me rodeiam!!! Porquê?? Por que é que eu sinto isto? Por que é que consigo olhar para dentro do âmago de cada ser? É asqueroso, horripilante pensar que existem pessoas assim. A falsidade atingiu limites que ultrapassam os limites da inteligibilidade. Eu sou falsa!! Só eu sou falsa, mais ninguém!! Eu invento invejas!! Eu invento ódios e mentiras!! Eu escorro pelas minhas janelas até ao chão. Mais ninguém. Tudo está espelhado na aparente transparência de uma gota de água, que, afinal, desfigura a realidade que lhe deu oportunidade de viver. Só vos peço que me deixem seguir o meu percurso. Não queiram juntar se a mim e aumentar o peso do meu destino. Sozinha conseguirei que todas as gotas sejam felizes e possam escorregar pela minha janela sem encontrões ou acumulações de emoções. Tudo linear, tudo natureza. Basta uma gota de água para eu rebentar.
Agradeço que me deixem chegar ao chão.

Obrigada.

23 maio 2007

A Morgadinha dos Canaviais

A recente leitura da Morgadinha dos Canaviais sugeriu-me algumas reflexões . Leitura fácil e, no entanto, aprazível. Diversos estilos de linguagem adaptados a cada personagem, que realçam as suas características citadinas ou aldeãs. Entre as reflexões do narrador sobre os problemas do desenvolvimento das aldeias, sobre perspectivas políticas e crítica à corrupção da alma, o que mais se valoriza (talvez para captação da atenção de um público alvo) é o contraste das classes sociais e as relações entre personagens. Pelo título descobre-se a personagem que protagonizará a história principal, mas não será a minha favorita. Personagem astuta e inteligente, mas, ao mesmo tempo, presa a preconceitos. Torna-se ridícula a importância atribuída a uma personagem que, no final, evidencia comportamentos preconceituosos, apesar de afirmar o contrário.

Não tendo eu uma visão muito positiva sobre o amor, não me convém olhar para esta obra sob uma perspectiva amorosa. Já que, ao ler, o que me ficou evidenciado foi a não existência do amor.

O amor é para mim sinónimo de hábito. O que as pessoas procuram é o hábito. Este, conjugado com uma boa aparência e uma superficial identificação de ideais, torna-se mais forte e difícil de abandonar. O medo de Henrique de ficar sozinho, faz com que se "apaixone" por uma rapariga (inconsciente e ingénua, típica mulher casadoira) de aspecto físico angelical. Essa paixão surgiu, depois, de esta personagem ter vivido sobre os cuidados da doméstica. Um amor que surgiu dos hábitos domésticos. Note-se, que, na mesma obra, se faz referência à D. Doroteia e à sua criada, ambas da mesma idade, que habitam a mesma casa e quase a mesma personalidade. Aí está o hábito, um amor que aparentemente não se concretizou fisicamente, pelo menos assim quis fazer sobressair o narrador: " A inalterável harmonia, mantida havia tantos anos entre as duas, poderia ser exemplo à maior parte das famílias deste mundo. Entre velhas, que nunca tiveram filhos, circunstância que em geral faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso." O hábito, a aceitação dos erros dos outros (desde que esses aceitem os nossos), o medo da solidão cria o famigerado amor. Não há caras-metade, há a criação de ideais de hábito. Isto é, analisa-se uma pessoa exterior e interiormente para se reflectir o quanto teríamos de mudar e prescindir para nos libertarmos dos ferros da solidão. É tudo uma questão de percentagens. Existem pessoas com hábitos parecidos com os nossos, outras que chocam de tal maneira que é impossível uma relação duradoira (embora, por vezes, se tente salvar a relação por uma questão física - há apenas o prolongamento da dor).

Esse medo da solidão é o mesmo medo que temos da morte. Para além de inevitável, não é mau. É misterioso, novo, mas não mau. Tanto a vida como as relações têm mais aspectos negativos do que a solidão e a morte. O hábito/ amor é a aceitação da irreflexão, do domínio da inconsciência, do consentimento do sofrimento e do laissez-faire. O amor é o comodismo, a porta fechada para viagens ao conhecimento. A prisão do hábito/ amor não pode co-ocorrer com a liberdade de opções. É-me impossível, portanto, amar e compreender aqueles que afirmam amar. O amor é de evitar, devemos sempre procurar atingir o nosso melhor enquanto seres humanos e não nos acomodarmos com a visão complacente de uma pessoa que consente os nossos vícios. Amor não é antónimo de ódio, mas sim um desvio, uma variante. O ódio só nasce se se relacionar os defeitos/ qualidades de uma pessoa connosco. Também o amor. O que os distingue é que o ódio exige revolta, o amor consentimento. Longe de mim valorizar o ódio. Pelo contrário, para se odiar é necessário ter experimentado o amor. Nem um nem outro são aconselháveis. Os dois provocam sofrimento. O que eu valorizo é vontade e concretização da mudança. Mudança de vícios, transformação de defeitos em qualidades, ajuda na auto e hetero-estima. Aconselho a não utilizar seres humanos para fugir à inevitabilidade. Utilizem o papel como eu.

P.S. Na leitura de Madame Bovary encontrei algo que corrobora a minha tese : " ... não teve dificuldade em se convencer de que a paixão de Charles nada mais tinha de extraordinário. As suas expansões haviam-se tornado regulares; beijava-a a determinadas horas. Era um hábito entre outros, como uma sobremesa previamente preparada, após a monotonia do jantar."

21 maio 2007

Não escrever durante estes meses fez ferrugem nos dedos. Sinto-os pesados e como que obrigados a escrever. Há algo em mim que se perdeu. Nada tem o sentido de antes. Aliás nada tem sentido agora. Cântico Negro já não é o meu poema de eleição. Não há nada com que eu me identifique. Seria mais: - "Vem por aqui" -
dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E descruzo os braços,
E vejo-me a ir por ali...

Sem explicação aparente, já não remo contra a maré. Não vejo nenhum objectivo. Peçam-me impossíveis e eu os obterei. Nada me preocupa, tudo me enfada. Viver na pressão de mais, mais, mais; atingiu tal ponto que o mais é nada. Não tem significado. Sou uma laranja espremida. Já não sai sumo, nem vitamina que se aproveite. Não me interessa que precisem de mim, não me interessa se eu preciso de alguém. Vazio. O tempo deixou um vazio no lugar das emoções. Uma morte, um nascimento, um desaparecimento, um encontro, um desabafo, uma queixa- seja o que for desvanece perante o meu olhar cansado. Ninguém nota quando as pessoas concordam em tudo. Porém, é isso que se deve estranhar. Um desaparecimento- mundo: "OH!!", porque não "HUM?" ou "e depois?" ou "Acontece.." Insensibilidade? poderá ser. Uma morte ou um nascimento- haverá coisa mais vulgar? Morreu um familiar teu? tenho muita pena, mas não sinto mesmo nada... Morreu um meu? então não preciso de tristezas forçadas, eu cá arranjo as minhas próprias. Tiveste um sobrinho? queres que diga que maravilha? ou que coisa fofa? os bebés são todos iguais, as crianças idem aspas. só te digo cuidado, não te deixes manipular. O bebé é meu? Então guardo-o só para mim. Lá me interessa que aches bonito ou feio, mimado ou inteligente. Só eu sei aquilo que eu sinto. Não gosto que me julguem, bem ou mal. Fujo a encontros. Sorrisos de desespero ( o que vou dizer a seguir?). Raras são as pessoas com que me queira encontrar. A essas, se as vir, abraço-as. Desabafos e queixas é que me põem fora de mim. Tudo me parecem trivialidades. Dou por mim a dizer as mesmas futilidades e deixo me ir pelo beco lamacento. Ultimamente tudo me irrita e ao mesmo tempo padeço de uma paciência descomunal. Atingi os limites. Nada mais espero de novo. Resta-me esperar o que falta a vida trazer, já que eu já fiz tudo para trazer a vida para junto de mim.


Nada do que escrevo é real e ao mesmo tempo torna-se real quando o leio. Parece que a escrita me antecede. Falta-lhe a voz da razão e do pensamento. falta-lhe a coerência e algum sentido. Sentido. Falta sentido na minha vida. Um rumo. Um objectivo. Falta conseguir escrever.

19 janeiro 2007

Memórias


Milhares de memórias percorrem os meus olhos como se fosse a última vez que eu as pudesse sentir. Quando chegam perto de mim, as pálpebras descem como se quisessem viver o passado. E nesse fechar de olhos a viagem foi possível, sinto o meu corpo a viajar e sinto os cheiros, as texturas e o meu coração. E quando sinto a palpitação do meu coração tudo se esvai. Abro os olhos e a sensação permanece, deixando o meu coração com duas palpitações. Sinto nostalgia da dor sofrida. O sentimento de saudade só indica perda, solidão. Foi em saudade que eu nasci e me criei. Tenho saudades do meu passado e do meu futuro. O presente parece-me sempre estagnado. Recuso-me a divertir para deixar mais marcas de saudade. E já sinto falta da estagnação. A minha alma hoje perdeu-se nas memórias. As memórias que não se lembram de mim...porque nunca existiram. Não são históricas, apenas são deturpações de uma perspectiva vencida que nunca será lembrada.

30 dezembro 2006

dois mil e sete

Fim de ano. Sinto um peso nos ombros. Carrego 365 dias nas minhas costas e tudo o que isso representa. Dor, muita dor em 2006. Muito sofrimento e ansiedade. Um curso acabado e uma lágrima vertida. Não houve celebrações. Só a lágrima se libertou. 2006, portanto, é sinónimo de curso, mais nada. 365 dias para mais nada. 2007 será estágio. É assustador prever já o sinónimo, mas antes de tudo, desmotivador. Alguém me ampare pois o mundo desabou no final de 2006 para eu carregá-lo em 2007. Não acho que consiga. Não entendo o porquê. Se aceitasse a razão inexplicada, talvez fosse mais fácil suportar o peso. Preferia viver na ingenuidade do que ter de viver experiências pesadas que nos fazem envelhecer 10 anos (2017). Basta de rodeios!! A raiva que corre nas minhas veias não me deixa escrever como desejava! Como é que alguém se apresenta como modelo e depois põe a possibilidade de nos abandonar!!! Eu não tolero ser abandonada, nem a possibilidade de poder ser abandonada!!! Onde estão os sentimentos? Há coisas que não se dizem...Solidão..Só eu senti a revolta. Porquê? Por que só senti humilhação à minha volta? Basta! Não suporto hierarquias...Não acho tolerável haver hierarquias. Fim de ano e não me aguento muito mais neste mundo. Mundo das aparências, das ilusões, do medo de magoar e magoar. Chega! Qual é o objectivo disto tudo? Para já provocou desmotivação. Não aguento mais. Pagar para ser humilhada? Pago quase 1000 euros de propinas para a ministra chegar e dizer que nós somos nada? que nós nos arranjamos com qualquer um? Para nos estragar o nosso ano de estágio porque outros valores mais altos se alevantam? Uma ministra que se diz ser da educação e não tem nenhuma vergonha de nos pisar? Precisa do nosso orientador e pronto acabou-se o estágio para as meninas...Mas o que é isto? Não suporto!! Voltas e voltas no estômago. Gritos de injustiça... O que é isto? Passar a frente de tudo o que não interessa por um capricho? sim, um capricho. Que se lixe a TLEBS!!! Grandes mudanças? Quem poderia aplicar as mudanças? Só nós estagiários!!!! Pedem a professores com 30 anos de carreira para esquecerem a gramática tradicional. Mas o que é isto? A que propósito? Alguém pode ter alguma sensibilidade e educação para não instalar uma guerra e explicar? Sou estagiária e já perdi a noção da importância da TlEBS... Pisar pessoas não vai ao encontro daquilo que eu esperava. Não. Não. 2007 vai começar mal. Sim, mal...Injustiça em Portugal. Pisaram-me... Não se brinca com o fogo. Não é sensato aplicar métodos de tortura a futuros professores. Cuidado, as minhas forças podem se concentrar. Eu sou humana, não tolero humilhações, principalmente de alguém que me devia orientar e que é a pessoa que mais me despreza. O futuro está em nós, não é bom nos tratarem assim. Hoje estou capaz de levantar uma revolução!!! Falta a voz! Não tenho a educação da ministra, graças a deus que me deram olhos do povo! Sou uma entre muitos, mas a mim magoa-me ser pisada e não vou deixar ficar para trás. A TLEBS é mais importante que os professores que a vão leccionar? Como é que o abstracto pode viver sem o concreto? Já é difícil conciliar forças contrárias. O estágio é feito de hierarquias e cada camada mais elevada que nós tem uma posição diferente. É uma vergonha. Ninguém se entende. Dão supervisões e cadeiras de metodologia a quem não entende nada, mas nada de educação. Eu sei que não posso ser professora. Eu tenho vergonha de ser professora!!!! 20 anos a estudar para quê? 2007 vai trazer mais agonia. já não suporto o mundo. É impossível saber o que sei e ensinar. Quero pedir desculpas a todas as crianças de Portugal, mas poucos terão a sorte de conhecer o que os ensinou...Estamos a criar um país de burros, é esse o objectivo... só assim se pode criar uma ditadura...1974 foi um ano como tantos outros. Chega de ilusões...A quem estou tentar enganar?

18 novembro 2006

auto retrato

Composição: Florbela Espanca
voz: Mariza

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.


Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!


Se eu sempre fui assim este mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!


Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

09 novembro 2006

O Beijo


Reproduzir o já vivido é impossível. Esta tentativa, não é de todo tentativa mas outra reprodução. Até porque não sei se seria mais doloroso repetir de novo as mesmas sensações.
Tudo corria bem quando me deixavas com o viajar dos meus olhos, sempre deambulando entre os teus olhos e lábios. Os teus olhos expressavam aquilo que queria ouvir e os teus lábios aquilo que queria sentir. Ah, os teus lábios moldáveis, tristes e alegres quando falavam, sempre em movimento denotando um nervosismo não desvendado. E quando dormiam? Sossegados um encostado no outro, como num beijo eterno, sentido um calor macio que os confortava. Pareciam tão bem, tão indepedentes. e os meus sentiam-se sós, necessitavam daquela harmonia, de alguém que os ensinasse a ser um corpo e não parte dele. Mas essa aprendizagem deveria ser só eu a dar. Eu deveria ensiná-los a ter personalidade própria, não seguir ninguém, não invejar ninguém. Porquê tu não deixaste? Que direito tinhas tu de os orientares para determinado sentido? Parecia que pousaste um veneno quente e doce nos meus lábios. Num momento nada me parecia mau, tudo se revelava como imaginei. Lábios com sentimento, fosse ele qual fosse. Até que descobri qual o sentimento que domina os meus e ia de encontro ao domínio que os teus lábios impunham. Poderia ter te parado. Mas deixei o momento correr e beijaste e sorriste e ficaste sério e falaste e ouviste e calaste-te e pousaste os olhos no chão para não me veres a ir embora
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