30 dezembro 2006
dois mil e sete
18 novembro 2006
auto retrato
voz: Mariza
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
09 novembro 2006
O Beijo

Tudo corria bem quando me deixavas com o viajar dos meus olhos, sempre deambulando entre os teus olhos e lábios. Os teus olhos expressavam aquilo que queria ouvir e os teus lábios aquilo que queria sentir. Ah, os teus lábios moldáveis, tristes e alegres quando falavam, sempre em movimento denotando um nervosismo não desvendado. E quando dormiam? Sossegados um encostado no outro, como num beijo eterno, sentido um calor macio que os confortava. Pareciam tão bem, tão indepedentes. e os meus sentiam-se sós, necessitavam daquela harmonia, de alguém que os ensinasse a ser um corpo e não parte dele. Mas essa aprendizagem deveria ser só eu a dar. Eu deveria ensiná-los a ter personalidade própria, não seguir ninguém, não invejar ninguém. Porquê tu não deixaste? Que direito tinhas tu de os orientares para determinado sentido? Parecia que pousaste um veneno quente e doce nos meus lábios. Num momento nada me parecia mau, tudo se revelava como imaginei. Lábios com sentimento, fosse ele qual fosse. Até que descobri qual o sentimento que domina os meus e ia de encontro ao domínio que os teus lábios impunham. Poderia ter te parado. Mas deixei o momento correr e beijaste e sorriste e ficaste sério e falaste e ouviste e calaste-te e pousaste os olhos no chão para não me veres a ir embora.
17 outubro 2006
porque é bom relembrar
frases cómicas dos nossos mentores :
"Não é grande coisa, o rei Artur..." (A.S.L.)"
Não vai ser agora, se não ainda arrancam a cadeira e dão-me com ela na cabeça..." (P. Tav.)
"A Menina e Moça não é um OVNI" (Far.)
"Vamos todos queimar as aulas" (Far.)
"os deuses têm pouco que fazer"(Far.)
"isto são coisas de quem não tem mais nada para fazer" (Far, acerca das funcionárias da secretaria)
"o prof. é um chato..." (Far, sobre si mesmo)
"é sex, mas é assim que se escreve..." (Far.)
"podem comprar... desviar, roubar os livros..." (Far.)
"a empregada eclipsou-se" (Far.)
"Vamos é falar da selecção nacional, do Ronaldo e do Cristiano..." (L. Gr)
"O sistema entra em qualquer fechadura" (L .Gr.)
"Isso não me interessa nem um átomo." (Cl. Brr.)
"Eu fui aluno do Roland Barthes" (Ar. Sar.)
"Coitadinho do leão, que não tem nenhum cristão para comer!" (criança romana, citada por F. Tp.)
"Se comerem a árvore..." (M. Ra., citando a serpente do Génesis)
"Eu agora estava a delirar..." (M. Ra.)
"É um poema quase só de versos..." (=verbos, M. Ra.)
"Depois vou-vos usar..." (M. Ra., = vou-vos mostrar como se usa)
"o alfa negativo tem carga negativa" (M. Ra.)
"uma pessoa que trabalha no correio chama-se... correio"
M. Ra.)"a nossa sociedade é mais epicurista do que estoicisma..." (M. Ra.)
"Uma obra muito famosa, sabem quais são?" (M. Ra.)
"É uma criação inventada pelos gregos" (M. Ra.)
"Foi uma irreverência muito bem pensada" (M. Ra.)
"Ando sempre a fechar as luzes" (M. Ra.)
"é muitíssimo velo" (M. Ra.)
"protuguês... petroguês..." (=português????) (M. Ra.)
"via muito-a" (M. Ra.)
"dactilorgarfar" (M. Ra.)
"Eu savia, tu savias, ele savia..." (M. Ra.)
"A Sapo já não é assim..." (=Safo; M. Ra.)
"o ta marbuta pode ser inspirado (=aspirado) na leitura" (Ab.)
"vulcães" (Ab.)
"O vosso colega perguntou uma pergunta que disse..." (Ab.)
"o árabe é uma língua semética" (Ab.)
"abertura e fechadura" (Ab.)
"Flexblidade" (Ab.)
"soltero" (Ab.)
"vocês têm tanto bagagem" (Ab.)
"traços para peões" (=passadeiras; Ab.)
aluno: "Não há nenhum contexto em que se distingam?"prof: "Sim, sim, são iguais" (Ab.)
"antecida" (=antecedida; Ab.)
"as morfemas" (Ab.)
"Escreví" (escrito assim no quadro...; Ab.)
"Recadeiras" (G. M.)
"pertinância" (G. M.)
"linga" (S. Car.)
"prótagonistas" (P. Tav.)
14 outubro 2006
Estágio
É assim que me tenho sustentado, de sonhos, ilusões, criações. Adormeço a sonhar, acordo com outro sonho a desenvolver. Mas o meu espaço de eleição para sonhar não é enquanto durmo, mas enquanto viajo. Que sítio mais perfeito, se não numa viagem onde a imaginação pode ganhar asas. E parto do concreto, uma pessoa torna-se minha vítima, sei de onde veio, para onde vai, o que pensa, onde trabalha e a rotina do seu dia a dia. Não existem pessoas no metro que não sejam rotineiras. A começar por mim...o sonho é a rotina da minha vida neste momento.
A escrita não consegue vivenciar aquilo que me faz respirar todos os dias. Há um amor dentro do meu coração, um conforto, uma paz que me faz levantar todos os dias. Tenho transportado esse amor nos meus olhos e onde eles tocam eu apaixono-me. Apaixono-me por aquilo que não conheço e por aquilo que já conhecia. Há uma amálgama de sentimentos e pessoas dentro de mim. E com tanta confusão dentro de mim, tantas pessoas a falarem ao mesmo tempo, tantas pessoas a amarem-me de diferentes maneiras, sinto-me só. Sou a ervilha esquecida no prato, a primeira gota de indício de chuva que a ninguém tocou, o sonho de quem ninguém se lembra...
É assim o estágio. Um ano isolado, que não representa o futuro, nem o passado. Um ano de emoções únicas, nunca mais vividas. Um ano de tentativas de humilhação e superioridade. Sou a senhora doutora e a estagiária. "Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei... " e já agora porque não:
"16
Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular...
Soltas as rédeas,
Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar
A torre de oiro que era o capo da minha Alma,
Transviarão pelo deserto, moribundos de Luar
-E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...
Nos oásis depois hão-de se abismar gumes,
A atmosfera há-de ser outra, noutros planos;
As rãs hão-de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...
*
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
- Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
............................................................................
............................................................................
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...
(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...) "
Lisboa, Maio de 1914, Sr Mário de Sá-Carneiro
ps: é me impossível passar isto como poema, fazer paragráfos ou espaçamentos, pelo facto, as minhas desculpas.
23 setembro 2006
Paixões

Amo a vida, dou importância aos momentos de paz. Quero descanso. Poder encontrar-me. Pede-se alguém que se vir uma alma perdida, será a minha. Não sei onde a deixei no meio da confusão. Quando estou perto do mar parece que me alivia a saudade de mim. Poderei alguma vez retornar a minha paz. Confissão de Madredeus e o mar.
26 agosto 2006

Chegar de férias é um pesadelo. Deus fez as férias e as malas o Diabo. Saudades transformadas em lágrimas na viagem de regresso ouvindo Zeca afonso " No monte é que estou bem, onde na veja ninguém, ai, no monte é que estou bem." Mas na verdade via muita gente, mas sentia-me tão bem... Às vezes arrependo-me de não ter feito aquilo que me apetecia fazer, outras vezes agradeço a deus por não o ter feito, sabe-se lá as consequências de uma queda que aparenta ser livre mas pode ser fatal. Mas saudades é o termo certo daquilo que sinto, uma dor alegre, um passado irrepetível, mas que me marcou e isso, embora não suficiente, marca a ruga do sorriso no canto da boca que se vai acentuando com as diversas experiências vividas. Penso sempre que estou velha e que já nada de novo me acontece e de repente espanto de ver a criança ainda contida em mim. A alegria, o pouco que basta, o demais que não é suficiente, a imaginação que desenlaça saudades de um real vivido só por mim. ah, a montanha, os passeios às estrelas, o som da água a acompanhar os meus passos, o ruído da madeira a ranger quando há algo que se contorce cá dentro, as folhas esverdejantes das árvores e o calor a apertar-me as mãos. A energia que se libertou e se alastrou... Nasci no mar, mas morro na montanha.
21 julho 2006
O meu acto heróico
25 abril 2006
Insignificâncias
19 abril 2006
14 abril 2006
02 abril 2006

a música, a dança transmitem-me algo que a escrita não consegue. Para quê escrever então? Mais vale dançar... a escrita deixa-me impaciente. O que faço agora? Para que escrevo se não gosto? Porquê que as letras não bailam? Já que alguns dizem que fazem música, porque não se libertam do papel? Porque não danço então? Não tenho espaço...Ñão há espaço suficiente para libertar tanta mágoa, tanta energia acumulada... Por isso imagino. Olho para a minha bicicleta e imagino-me a voar à beira mar. Com o vento a bater na cara. Ouço músicas que dancei. Músicas que queria dançar. Apetece-me correr, mas eu detesto correr, eu não sei correr, parece que o meu corpo se despedaça. mas quem me dera correr! Nunca fiz aquilo que me apetece. São coisas pequeninas, correr, sair e ver o mar, gritar, dançar... Nunca fiz nada disso. Limito-me a escrever. Mas é tão grande a força com que bato nas teclas e não é capaz de dizer nada...falem por vós, ó letras!!! Lá estão as pontas dos meus dedos a teclar, teclar. só esses, coitados, fazem alguma coisa. nem os meus olhos os acompanham. Estão cansados..Cansados de imaginar a minha alma fora de mim a correr... que necessidade de fuga! de libertação! Só essa fuga me poderá prender. Nada me interessa e motiva. Não tenho um objectivo. Nem realizar os sonhos. Parece-me impossível dançar, correr, ver o mar. Nunca acabei nada ao certo na minha vida. A única coisa que vai até ao fim, com certeza, é a minha vida. Deixo tudo andar até desvanecer. Parece que é a vida que está a fugir de mim, a dançar, a correr... Sinto-me amorfa. a palavra soa-me bem. Será doença este não querer? Como não consigo cumprir nada daquilo que me comprometo a fazer? Tenho de me compremeter a cumprir. Tenho de traçar objectivos menos complexos... esquecer dançar, correr, voar à beira mar. Tenho de me compremeter em publicar isto, para que isto deixe de ter valor. claro que publico e depois apago... mas não posso! não posso! Pelo menos uma semana. Antes de mais descobrir quem sou e o que quero, só depois dançar... a escrita só me acompanha quando não há mais nada à volta. Desde pequena que só escrevo quando estou revoltada ou apaixonada....ou mudo isso ou acabo este pedaço de mim, ou melhor, deixo desvanecer......
"Com o mais secreto das palavras
a água clara dos ditongos
a cascata das esdrúxulas
se vai compondo a ténue
porém teimosa tentativa
Ausculto
a veia que me bate no joelho
o veio que me corre na alma
Não sei qual o caminho
das palavras
Inesperadas fluem
na dor de quem nasce
na alegria de quem recebe
no pudor de quem dá
Recolho com pétalas
seus transparentes
coloridos sopros
e contra o vento
canto "
Rosa Lobato de Faria
14 março 2006
Vila do Conde

Tenho uma certa vaidade por ter crescido nesta cidade... como toda a gente tem pela sua terra...Mas também sei ver os seus defeitos... Parece que os vileiros tem fama de se meterem na vida dos outros. Há uma certa necessidade em reparar que a vida dos outros é pior. Também conheço muitos loucos, são já monumentos, estão sempre nos mesmos locais, não os imagino a morrer. Se morrerem, morre um pedaço da cidade. Por vezes, é me impossível apreciar a beleza da cidade pela poluição que algumas vozes não hesitam em derramar. Outras vezes, sinto-me louca, como se a cidade propagasse alguma doença psíquica. Será que não sou? Será que os loucos sabem que o são? Eu não sei se sou, mas não repugno a ideia...Talvez por isso é que me sinto bem nesta cidade porque sonho que algum dia alguém me verá como um monumento. Será loucura querer pertencer a algum lugar? Será loucura o receio de me perder, ou melhor, de não ser achada ?